O provável futuro primeiro-ministro da Alemanha, Friedrich Merz, surpreendeu ao declarar, logo após o fechamento das urnas nas últimas eleições, que a Europa deve se preparar para garantir sua própria segurança diante da crescente indiferença dos Estados Unidos ao continente. Em um discurso incisivo, Merz afirmou que o governo de Donald Trump demonstra uma postura “amplamente indiferente” ao destino do continente europeu, tornando urgente a necessidade de a União Europeia se fortalecer para alcançar independência dos EUA. “Estou em contato próximo com muitos primeiros-ministros e chefes de governo da UE, e deve ser uma prioridade absoluta fortalecer a Europa o mais rápido possível para que, passo a passo, possamos alcançar independência dos EUA”, declarou.
Merz destacou ainda que a incerteza quanto ao futuro da Otan e a postura dos EUA no cenário internacional exigem uma reformulação das estratégias de defesa europeias. “Nunca imaginei que teria que dizer algo assim. Mas depois das declarações de Trump, está claro que os americanos, pelo menos este governo americano, são amplamente indiferentes ao destino da Europa”, completou. Esse discurso reflete uma mudança significativa nas relações transatlânticas, algo impensável até pouco tempo atrás, especialmente para um político que tradicionalmente defende laços estreitos com os Estados Unidos.
Além de reafirmar a necessidade de maior autonomia europeia, Merz expressou um “medo de ficar de fora”, ou “FOMO” (fear of missing out), observando que, como uma das três grandes potências europeias, a Alemanha deveria ter um papel mais ativo na política global, especialmente em questões de segurança e defesa.
Merz agora enfrenta a tarefa de formar uma coalizão para garantir a maioria parlamentar. Seu partido, a União Democrata Cristã (CDU), obteve 28,5% dos votos, superando a extrema-direita da Alternativa para a Alemanha (AfD), que teve seu melhor desempenho histórico com 21%. O Partido Social-Democrata (SPD), do atual chanceler Olaf Scholz, surge como um possível aliado na formação do novo governo.
As declarações de Merz sobre a necessidade de autonomia europeia repercutiram rapidamente nos mercados financeiros, com o índice pan-europeu Stoxx 600 registrando uma leve alta de 0,20% logo após os pronunciamentos.
Essa postura de Merz marca uma possível virada na política externa da Alemanha e pode redefinir as alianças do país, que, até agora, dependiam fortemente dos Estados Unidos para sua segurança. No entanto, essa mudança vem com desafios internos e externos, como as dificuldades econômicas da Alemanha e a necessidade de consolidar apoio dentro da própria União Europeia, que pode nem sempre concordar com um tom tão agressivo contra os EUA.
Merz também destacou a importância de reforçar a defesa da Alemanha, especialmente com o cenário de insegurança gerado pela guerra na Ucrânia. A Alemanha, que já é o segundo maior fornecedor de ajuda militar à Ucrânia, tem se preocupado com a ameaça russa e a falta de armas nucleares no país. Em uma tentativa de aumentar a segurança europeia, Merz sugeriu a criação de um guarda-chuva nuclear europeu, com a participação da França e do Reino Unido, uma proposta que, embora atraente no discurso, enfrenta obstáculos políticos e financeiros.
Esse movimento pode sinalizar uma liderança mais forte da Alemanha na Europa, mas ainda há muitas incertezas sobre se os aliados europeus e os cidadãos alemães estão prontos para uma abordagem tão independente e assertiva. A Alemanha, assim como o resto da Europa, enfrenta um período de transição, e o futuro das relações transatlânticas, que dominaram o cenário desde o fim da Segunda Guerra Mundial, nunca foi tão incerto.
REUTERS/Fabrizio Bensch





