Rose Girone, considerada a sobrevivente mais velha do Holocausto, faleceu na última segunda-feira, 24 de fevereiro, aos 113 anos. Sua morte ocorreu em um lar de idosos em Bellmore, Nova Iorque, conforme anunciou sua filha, Reha Bennicasa. Reha, também uma sobrevivente do Holocausto, descreveu a mãe como uma mulher “forte e resiliente” que soube tirar o melhor de situações extremamente difíceis.
Nascida Rose Raubvogel em 13 de janeiro de 1912, em Janow, na Polônia, que na época fazia parte do Império Russo, Rose mudou-se com sua família para Hamburgo, na Alemanha, quando tinha apenas seis anos. A chegada do regime nazista e a ascensão de Hitler, em 1933, mudariam para sempre a vida de Rose e de milhões de outros judeus.
Em 1937, Rose casou-se com Julius Mannheim, um judeu alemão, e em 1938, estava grávida de nove meses quando o marido foi levado para o campo de concentração de Buchenwald, na Alemanha, logo após o início das perseguições nazistas. Em uma decisão que mudaria o destino de sua família, Rose não foi levada junto com o marido, pois estava grávida.
Após o nascimento de sua filha, Reha, em 1938, Rose conseguiu arranjar vistos para ela, seu marido e filha embarcarem rumo a Xangai, na China, que na época era um refúgio para muitos judeus que fugiam da perseguição nazista. Apesar de ter deixado a Alemanha com apenas algumas roupas e lençóis, a família conseguiu garantir a liberdade de Julius e escapar das garras do regime nazista. A travessia até Xangai, no entanto, não significou segurança imediata, já que os portos chineses logo foram ocupados pelos japoneses. A família foi forçada a viver em condições precárias e a ser confinada em um gueto, onde tiveram que enfrentar inúmeras adversidades.
Durante esse período difícil em Xangai, Rose começou a se sustentar ao tricotar e vender suéteres. O marido, por sua vez, conseguiu abrir um pequeno negócio comprando e vendendo mercadorias usadas, e depois adquiriu um táxi. Em 1941, a família foi confinada em um gueto sob o regime japonês, onde enfrentaram condições de vida ainda mais duras. Rose lembra da opressão constante, dos sofrimentos que vivenciaram no gueto, e das longas filas para conseguir comida, enquanto estavam sob a vigilância de um oficial japonês cruel que se autodenominava “Rei dos Judeus”.
Após o fim da guerra e com o avanço dos aliados, Rose e sua família receberam notícias de seus parentes nos Estados Unidos. Em 1947, com a ajuda de familiares, a família embarcou para São Francisco com apenas 80 dólares, que Rose havia escondido nos botões de suas roupas. No mesmo ano, eles chegaram a Nova York e começaram uma nova vida. Rose, com a ajuda de sua mãe, abriu uma loja de tricô no bairro de Queens, onde se tornou uma figura conhecida na comunidade local.
Ao longo de sua vida, Rose enfrentou inúmeros desafios, mas sempre manteve sua resiliência e otimismo. Ela se divorciou de Julius Mannheim e, em 1968, casou-se com Jack Girone, com quem permaneceu até a morte dele em 1990. Sua filha, Reha, a descreve como uma mulher sábia e cheia de amor, que acreditava que “nada é tão ruim a ponto de não poder resultar em algo bom”.
Rose também falou sobre a importância de manter um propósito na vida. Segundo sua neta, Gina, Rose sempre dizia que o segredo para a longevidade estava no amor por chocolate amargo e na importância de acordar todos os dias com um propósito claro.
Rose Girone foi uma testemunha viva da tragédia do Holocausto e de tudo o que ele representou para milhões de judeus e outras minorias perseguidas. Com sua morte, a comunidade mundial perde uma das últimas vozes diretas sobre aquele período sombrio da história. A perda de Rose serve como um lembrete da importância de continuar a educação sobre o Holocausto e de garantir que as lições desse período nunca sejam esquecidas.
Ela também é um símbolo da luta pela preservação da memória e da sobrevivência, de como, apesar dos horrores que enfrentou, ela conseguiu encontrar forças para reconstruir sua vida, sempre com foco no futuro e no bem-estar de sua família. Para os judeus sobreviventes, como Rose, sua história de vida é um testemunho da importância de contar sua história para as gerações futuras, para que as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial nunca se repitam.
Rose Girone, com seu exemplo de vida, sempre será lembrada como uma verdadeira heroína, não apenas por sua sobrevivência, mas também por sua contribuição em manter viva a memória das vítimas do Holocausto e por ser uma defensora da visibilidade dos sobreviventes. A história de sua vida é uma lição de força, resiliência e, acima de tudo, de humanidade.





