Na sexta-feira, 31 de março, um terremoto de magnitude 7,7 sacudiu o centro de Mianmar, deixando um rastro de destruição e uma tragédia humanitária de grandes proporções. O número de mortos já ultrapassou 3.000, com mais de 4.700 feridos e centenas de desaparecidos. O desastre natural, um dos mais fortes a atingir a região em um século, provocou o colapso de edifícios, hospitais e infraestruturas essenciais em áreas como Mandalay, Sagaing e a capital Naypyitaw. Milhões de pessoas ficaram desabrigadas e sem acesso a serviços médicos essenciais, e a crise só se intensifica com o agravamento das condições climáticas, incluindo calor extremo e chuvas fora de época.
A Reação da China: Rápida e Visível no Terreno
Em meio a essa devastação, um ator se destacou pela rapidez e eficácia na resposta: a China. Logo após o pedido de ajuda internacional de Mianmar, Pequim enviou uma grande missão de socorro, com mais de 30 equipes de resgate e mais de 600 funcionários. O país comprometeu US$ 13,76 milhões em assistência humanitária, incluindo tendas, cobertores e kits de primeiros socorros. Além disso, a Cruz Vermelha Chinesa fez uma doação substancial em dinheiro, somando 1,5 milhão de yuans (cerca de US$ 205.563).
As equipes de resgate chinesas foram amplamente visíveis nas áreas afetadas, e o apoio do governo chinês foi amplamente destacado nas redes sociais de Mianmar. Vídeos de equipes chinesas retirando sobreviventes dos escombros e ajudando na busca por vítimas circulam amplamente, com muitas postagens acompanhadas de expressões de gratidão à China. As equipes chinesas, assim como os grupos de resgate indianos e russos, se destacaram entre as primeiras a chegar, com seu trabalho sendo crucial para salvar vidas e trazer algum alívio aos sobreviventes.
Essa resposta rápida da China também reflete um momento de mudança na percepção pública em relação ao país, especialmente considerando o histórico negativo em Mianmar devido ao apoio de Pequim à impopular junta militar. Em tempos normais, a presença chinesa no país é vista com desconfiança por grande parte da população, especialmente pela oposição à junta, que considera o apoio da China ao regime militar como uma interferência negativa nos assuntos internos de Mianmar. No entanto, a resposta humanitária de Pequim foi amplamente elogiada, o que gerou um “alívio” em sua imagem no país, que está enfrentando não só o impacto do desastre, mas também uma guerra civil em espiral.
A Ausência dos Estados Unidos e os Cortes que Prejudicaram a Resposta
A ausência dos Estados Unidos na linha de frente da resposta ao desastre em Mianmar é um reflexo das dificuldades enfrentadas pelo país após os cortes drásticos implementados durante o governo Trump. Enquanto a China mobilizava suas equipes de resgate com eficiência, os Estados Unidos, historicamente os maiores doadores humanitários mundiais, ofereceram apenas US$ 2 milhões em ajuda. Embora o governo dos EUA tenha prometido enviar uma pequena equipe de avaliação de danos, a falta de recursos e a impossibilidade de obter permissões para enviar equipes de resgate qualificadas atrasaram a chegada de apoio significativo.
Os cortes impostos por Trump, que reduziram drasticamente o orçamento da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID), afetaram a capacidade do governo americano de responder rapidamente a desastres globais. A maioria dos funcionários que coordenariam a resposta humanitária a Mianmar foi demitida, e os contratos com parceiros terceirizados foram interrompidos. Ex-funcionários do governo afirmaram que, se a USAID estivesse funcionando plenamente, a resposta dos EUA seria muito mais rápida e eficaz, com equipes de resgate urbanas sendo enviadas para Mianmar em questão de horas. Esse “vácuo” criado pela falta de recursos e a diminuição da presença dos EUA no terreno abriu espaço para que outros países, como China, Rússia e Índia, desempenhassem papéis mais proeminentes.
Desafios Climáticos e de Saúde Agravam a Situação
Além da devastação causada pelo terremoto, as condições climáticas extremas também estão agravando a crise. O calor intenso de até 38°C e a previsão de chuvas fortes até meados de abril colocam ainda mais pressão sobre os esforços de resgate e as condições de vida dos sobreviventes. Muitas pessoas, temendo os perigos dos escombros, estão acampando ao ar livre, o que aumenta o risco de surtos de doenças. As autoridades de saúde global alertaram para a ameaça de cólera, malária e doenças transmitidas por água, já que muitos dos sistemas de saneamento foram destruídos pelo terremoto.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) está se preparando para enviar US$ 1 milhão em suprimentos de emergência para ajudar a conter surtos de doenças, mas a falta de instalações de saúde, com metade dos hospitais da região destruídos, torna a situação ainda mais desafiadora. A ausência de estruturas médicas adequadas e a dificuldade de acesso a regiões isoladas devido ao conflito armado e à destruição das estradas dificultam o trabalho das equipes de socorro.
A Solidariedade Internacional
A ajuda internacional tem sido fundamental para enfrentar a crise, com países como a Índia e a Rússia também enviando assistência significativa. A Índia, por exemplo, enviou aeronaves e navios para entregar 625 toneladas de ajuda, além de equipes de resgate que realizaram operações de busca e salvamento. A Rússia também montou hospitais móveis em áreas afetadas.
No entanto, a situação política de Mianmar, marcada pela presença da junta militar e o confronto constante com forças rebeldes, complica ainda mais a resposta humanitária. A China tem se posicionado como um ator central na política e na ajuda a Mianmar, mantendo laços estreitos com o regime militar, mas também com grupos rebeldes locais. Alguns analistas veem essa estratégia como uma forma de Pequim garantir influência no país, ajudando tanto as autoridades militares quanto as populações de áreas controladas pelos rebeldes.





