Em mais um capítulo da crescente tensão comercial entre Estados Unidos e China, o governo chinês ordenou que suas companhias aéreas suspendam a recepção de novas aeronaves da Boeing. A medida surge em resposta às tarifas de até 145% impostas recentemente pelo presidente Donald Trump a produtos chineses.
O impacto é direto sobre um setor estratégico da economia americana. As ações da Boeing chegaram a cair 4,6% no pré-mercado nesta semana, ampliando uma trajetória de perdas que já acumulava queda de 10% desde o início do ano. A China representa hoje cerca de 20% da demanda global por aviões comerciais e, somente em 2024, respondeu por um quarto da produção da fabricante norte-americana.
De acordo com informações da agência, ao menos dez aeronaves 737 MAX estavam prontas para entrega a clientes chineses como China Southern Airlines, Air China e Xiamen Airlines. Parte desses aviões encontra-se armazenada na unidade da Boeing em Seattle; outras unidades estão nos estágios finais de montagem na planta de Zhoushan, na China.
Apesar da ordem de suspensão ter entrado em vigor no último dia 12 de abril, há a possibilidade de exceções para entregas já contratadas, segundo interlocutores próximos às negociações. Ainda assim, o gesto chinês foi lido por analistas como uma retaliação direta a Washington, atingindo um dos setores mais emblemáticos da indústria americana em um momento de fragilidade da Boeing.
A empresa atravessa uma fase turbulenta desde 2023, marcada por problemas contínuos na linha 737 MAX, atrasos na produção, escassez de componentes e uma greve que afetou parte de sua operação nos Estados Unidos. Em 2024, a Boeing amargou um prejuízo de US$ 11,8 bilhões, sendo US$ 3,8 bilhões somente no quarto trimestre.
Com o pano de fundo das incertezas econômicas e geopolíticas, especialistas avaliam que a China acertou um golpe em uma ferida ainda aberta — aproveitando-se da instabilidade política e das dificuldades internas da fabricante americana para pressionar os EUA.
Enquanto a Boeing enfrenta dificuldades, a brasileira Embraer colhe os frutos de uma fase de crescimento acelerado. Após ter sido abandonada pela gigante americana em meio à pandemia — quando a Boeing cancelou a compra de sua divisão comercial —, a empresa brasileira vive agora seu melhor momento em anos.
Em 2024, a Embraer registrou um lucro líquido de R$ 2,6 bilhões, crescimento de quase 700% em relação ao ano anterior. Impulsionada pelas boas perspectivas e pelas declarações favoráveis da China sobre parcerias com o Brasil, as ações da companhia brasileira subiam 3,94% no pregão desta terça-feira (15).
Embora o governo chinês tenha evitado confirmar publicamente o bloqueio às entregas da Boeing, a sinalização é clara. Elogios recentes à Embraer feitos por autoridades chinesas soaram como um recado indireto a Washington — e um possível aceno de interesse por alternativas fora dos Estados Unidos.
Analistas de mercado ainda hesitam em prever se a suspensão se manterá por longo prazo ou se será revertida em alguma reviravolta diplomática. Contudo, o episódio escancara como a disputa entre Washington e Pequim, longe de arrefecer, continua interferindo diretamente em negócios bilionários e setores estratégicos.
A estratégia chinesa parece mirar onde dói: a indústria aeroespacial americana. Resta saber se a Boeing conseguirá voar acima das turbulências.





