Em abril de 2024, o Rio Grande do Sul viveu a maior tragédia climática da sua história, com enchentes que devastaram mais de 400 municípios, alagaram bairros inteiros e causaram danos incalculáveis. A tragédia levou 147 vidas, afetou mais de 2,1 milhões de pessoas e deixou milhares desabrigados. Passado um ano, cerca de 380 pessoas ainda vivem em abrigos temporários, enfrentando a dura realidade da reconstrução de suas vidas. Muitas dessas famílias continuam em situação de extrema vulnerabilidade, com desafios emocionais e materiais que parecem não ter fim.
Vítimas das enchentes ainda enfrentam desafios imensos
Almerinda Veiga da Silva, 67 anos, é um exemplo da luta diária de quem foi afetado pelas enchentes. Ela foi forçada a deixar sua casa em Canoas quando as águas inundaram o bairro Rio Branco, levando tudo o que ela e sua família tinham. Almerinda teve que se separar do marido, que foi levado a um abrigo masculino, e seguiu com sua filha, que tem Síndrome de Down, para um abrigo exclusivo para mães com filhos especiais. No entanto, a situação, que parecia temporária, se arrasta e, com ela, chegam as perdas emocionais.
“Perdi minha filha, que tinha Síndrome de Down, por conta do trauma da enchente. Ela não aguentou. Também perdi meu marido, que entrou em depressão e faleceu no Natal. Não está sendo fácil”, compartilhou emocionada durante entrevista. Ela e sua filha estão entre as 240 pessoas que continuam no Centro Humanitário de Acolhimento Esperança, em Canoas, que completou um ano de existência, mas que ainda não tem prazo definido para encerrar suas atividades.
A reconstrução da vida: Lenta e dolorosa
A dor da perda não é a única batalha. Para muitos, como Cláudio Joel Bello, a incerteza de um futuro está se prolongando por meses. Ele foi afetado pela enchente no bairro Mathias Velho, que foi completamente alagado, e agora, quase um ano depois, ainda espera por uma solução habitacional definitiva. Cláudio foi contemplado pelo programa Compra Assistida, que oferece R$ 200 mil para a compra de um imóvel, mas ainda enfrenta dificuldades devido à lentidão do processo.
“Se o governo me deu a casa, por que eu não posso ir para ela de uma vez? Tenho quase um ano em abrigo”, questiona Cláudio, que está desempregado e precisa de uma solução urgente para sair da situação de vulnerabilidade em que se encontra.
No caso de Almerinda, a situação é igualmente complicada. Ela foi encaminhada para um bairro provisório em Estância Velha, mas achou o local inseguro e optou pelo aluguel social. No entanto, ela não tem os móveis necessários para se estabelecer no imóvel alugado e, sem os itens essenciais, se vê sem condições de deixar o abrigo. “A casa está alugada, foi pago o contrato e a caução, mas eu vou morar na casa sem nada?”, questiona.
O apoio e as dificuldades nos abrigos
A parceria entre o governo do estado, a Fecomércio-RS e a Agência das Nações Unidas para as Migrações (OIM) possibilitou a instalação de abrigos temporários que, embora oferecendo alimentos, serviços médicos, apoio social e até suporte para animais domésticos, não conseguem resolver rapidamente a questão habitacional. O centro humanitário de acolhimento Esperança, por exemplo, continua funcionando em Canoas, abrigando 240 pessoas, mas deve ser fechado até o final de maio. O local oferece, além de alimentação e assistência médica, programas de apoio à inserção no mercado de trabalho, inscrições em programas de habitação e até creche para crianças.
Um outro abrigo, localizado em Porto Alegre, atende cerca de 120 pessoas, mas também está em processo de desmobilização. Esses dois abrigos são os maiores e abrigam 93% do total de pessoas ainda em situação de vulnerabilidade no estado. No auge da crise, mais de 80 mil pessoas estavam em abrigos. Agora, o número diminuiu para 383 pessoas.
Programas habitacionais e a escassez de soluções rápidas
A prefeitura de Canoas anunciou a construção de 58 casas temporárias para abrigar algumas das famílias afetadas. As obras estão programadas para serem concluídas até o meio de maio, com cada unidade incluindo móveis e eletrodomésticos. No entanto, essas unidades temporárias ainda não são suficientes para resolver o problema habitacional de todas as vítimas da enchente.
Enquanto isso, outras famílias seguem em espera por moradia definitiva. A prefeitura de Canoas, com apoio da Caixa Econômica Federal, já iniciou dois empreendimentos habitacionais que devem somar 400 unidades e com previsão de entrega em até 18 meses. O programa Compra Assistida também continua a ser uma opção, mas muitos ainda enfrentam dificuldades em conseguir concretizar a compra de imóveis.
Além disso, a reconstrução de até 210 casas com apoio do Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social está em andamento, mas, como já é evidente, os desafios enfrentados pelas famílias são enormes. A administração municipal de Canoas também está tentando aumentar o número de unidades habitacionais com a previsão de um programa de mais 3 mil novas unidades.
O impacto psicológico e a luta pela recuperação
Além das questões habitacionais, muitos moradores enfrentam dificuldades emocionais profundas devido ao trauma das enchentes. Como Almerinda, que perdeu a filha e o marido, muitos ainda sofrem as consequências do que viveram durante aquele período de caos. A recuperação emocional é uma jornada longa, que requer mais do que apenas apoio material, mas também psicológico.
Apesar das dificuldades, o apoio de programas como Aluguel Social, Compra Assistida e a construção de novas moradias são um passo importante na reconstrução do estado e das vidas das pessoas afetadas. No entanto, é claro que muito ainda precisa ser feito para garantir que essas famílias possam viver novamente com dignidade e segurança. O processo de reconstrução é longo, mas a esperança continua viva para todos que, um ano após a tragédia, seguem com coragem em busca de um novo começo.
Fonte – Agência Brasil





