A Rua dos Protestantes, que historicamente tem sido um dos maiores pontos de concentração da Cracolândia, amanheceu de forma surpreendente esta semana. Moradores e comerciantes da região, que já estavam acostumados ao fluxo intenso de usuários de drogas no centro de São Paulo, notaram a quase total ausência de pessoas nessa área, gerando especulações sobre o que motivou essa mudança repentina.
Apesar do esvaziamento do tradicional ponto de aglomeração, os usuários de substâncias químicas não desapareceram completamente. De acordo com relatos de moradores, muitos se deslocaram para outros locais do centro da cidade, como a região do Minhocão, Santa Cecília e outras avenidas adjacentes. A mudança parece ter gerado uma movimentação de deslocamento, mas não uma solução definitiva para o problema.
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), em coletiva realizada na terça-feira (13), expressou surpresa com a rápida mudança, atribuindo o esvaziamento a um trabalho contínuo e conjunto da prefeitura e do governo estadual, além de ações que impactaram diretamente o tráfico de drogas na região. “Fiquei surpreso, pois já vínhamos reduzindo gradativamente a quantidade de pessoas na área”, afirmou Nunes.
Ele também mencionou uma possível relação com ações realizadas na Favela do Moinho, em que operações policiais têm desarticulado o tráfico local. O prefeito indicou que a movimentação para outros locais da cidade seria um reflexo dessa situação e ressaltou o trabalho constante das autoridades para conter o problema.
Porém, ao mesmo tempo, o vice-prefeito, Coronel Mello Araújo, comemorou nas redes sociais a redução do fluxo de dependentes químicos, parabenizando a atuação das forças de segurança. Ele afirmou que a mídia estava “inconformada” com a ausência de usuários e mostrou imagens das abordagens realizadas pela Guarda Civil Metropolitana (GCM).
Ações da Secretaria de Segurança Pública e Impactos na Criminalidade
A Secretaria de Segurança Pública (SSP) de São Paulo também se posicionou sobre as ações que resultaram na redução de dependentes químicos na Rua dos Protestantes. De acordo com o secretário Guilherme Derrite, o governo tem se concentrado no combate ao tráfico de drogas desde o início da gestão, o que teria impactado negativamente a estrutura financeira das organizações criminosas, enfraquecendo o fluxo de pessoas.
As operações realizadas pela SSP incluem apreensões de drogas, prisões de lideranças do tráfico e fechamento de estabelecimentos usados para lavagem de dinheiro. A secretaria destacou que houve uma queda significativa nos índices de criminalidade na região central, com diminuição de roubos em 43,9% e furtos em 28,8% em comparação com o ano anterior.
Além disso, foram criadas novas unidades policiais na região, e a Polícia Militar tem se preparado para separar criminosos de usuários de drogas, encaminhando os últimos para o Hub de Cuidados em Crack e Outras Drogas, onde podem ser tratados. A instalação de câmeras de monitoramento também tem ajudado a capturar foragidos da Justiça e a controlar a violência.
Críticas de Movimentos Sociais: Acusações de Violência e Abusos
Entretanto, a dispersão dos usuários da Cracolândia não é vista com bons olhos por todos. O movimento social A Craco Resiste denunciou em suas redes sociais que a retirada forçada de dependentes químicos da região estaria sendo acompanhada de uma crescente violência por parte da Guarda Civil Metropolitana (GCM).
O movimento afirma que as abordagens da GCM têm sido excessivas e cruéis, com relatos de agressões físicas, uso de spray de pimenta e roubo de pertences dos usuários. Para o grupo, a gestão de Ricardo Nunes, em parceria com o governo de Tarcísio de Freitas (PL), estaria reeditando a política da “Operação Dor e Sofrimento”, que foi implementada em 2012 e resultou em violação dos direitos dos dependentes químicos e moradores em situação de rua.
Relatos de abusos durante as abordagens indicam que muitas vezes os usuários são agredidos na cabeça e no rosto, sendo submetidos a situações humilhantes e sem qualquer tipo de assistência ou acolhimento. De acordo com o movimento, os usuários estariam sendo dispersados à força, o que causaria uma “tortura a céu aberto” para aqueles que já enfrentam sérias dificuldades relacionadas ao vício e à vulnerabilidade social.
A disputa por soluções eficazes continua, enquanto as autoridades tentam controlar o tráfico de drogas e as organizações criminosas, e ao mesmo tempo, garantir que os dependentes químicos recebam o devido cuidado e atenção.
Após a saída de usuários de drogas da região da Cracolândia, no Centro de São Paulo, comerciantes locais afirmaram que a presença dos dependentes químicos partiram para outros pontos.
Com o esvaziamento do trecho próximo à Estação da Luz — que abrange as ruas dos Gusmões, Andradas, Aurora, Santa Ifigênia, General Osório e Vitória — os usuários passaram a se concentrar em pequenos grupos nos seguintes locais:
O movimento A Craco Resiste, manifestou sua indignação nas redes sociais a respeito da políticas que tem sido aplicadas a região da Cracolândia.
Leia o texto na íntegra:
A Prefeitura de São Paulo passou a adotar nos últimos dias a política de dispersar na pancada os grupos de pessoas em situação de rua e que consomem drogas na região da Cracolândia, centro da cidade. Foi essa ação que provocou o esvaziamento do fluxo que estava concentrado na Rua dos Protestantes.
A política não é nova, remete à Operação Dor e Sofrimento posta em prática em 2012 pela gestão do prefeito Gilberto Kassab. À época, a polícia era orientada a impedir que as pessoas permanecessem nas calçadas e provocou a formação do que parte da imprensa chamava de “procissões do crack”, vagando pelas ruas empurradas pelas patrulhas e viaturas.
Os relatos colhidos pela A Craco Resiste no projeto de extensão universitária com grupos de pesquisa da USP e da Unifesp, indicam que houve uma orientação para que a GCM aumentasse a violência das abordagens. As pessoas ouvidas afirmam categoricamente que os guardas passaram a bater mais no rosto e na cabeça das pessoas, para além das outras agressões já cotidianas, com uso de spray de pimenta e apropriação de pertences pessoais, como roupas e dinheiro.
A gestão do prefeito Ricardo Nunes em parceria com o governo de Tarcísio de Freitas têm trabalhado para deixar as pessoas em uma situação limite. Há grandes dificuldades de acesso à água, revistas vexatórias e humilhações cotidianas, o que esfrangalha as condições emocionais das pessoas em desproteção social e propicia o contexto para violência.
O que está acontecendo nas ruas do centro de São Paulo chama-se tortura! Tortura a céu aberto, protagonizada pelo poder público e custeada por toda a população. Foram as diversas formas de violência que levaram as pessoas à Cracolândia e não vai ser a pancada que vai tirá-las de lá. Isto já foi tentado, já se sabe ineficaz, cruel e muito caro aos cofres públicos.
Precisamos de medidas que possibilitem a garantia de direitos básicos a todas as pessoas da cidade – com acesso à moradia, saúde, alimentação, higiene e lazer. Só assim vamos deixar de fazer guerra às pessoas e buscar realmente uma solução para o centro de São Paulo.





