A arqueóloga Niède Guidon, um dos maiores nomes da ciência brasileira e figura central na preservação do Parque Nacional da Serra da Capivara, faleceu aos 92 anos em São Raimundo Nonato, no Piauí. Sua vida foi marcada por uma dedicação incansável à pesquisa arqueológica e à valorização do patrimônio histórico nacional.
Natural de Jaú, no interior de São Paulo, Niède Guidon formou-se em História pela Universidade de São Paulo (USP) no final dos anos 1950. Mais tarde, aprofundou seus estudos na França, onde se doutorou em Arqueologia Pré-histórica na Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne. Ainda nos anos 1960, seu interesse pelas pinturas rupestres do Brasil a levou a concentrar esforços na região do sudeste do Piauí.
Durante o período da ditadura militar brasileira, exilou-se na França, de onde voltou em 1973 com a missão de coordenar a Missão Arqueológica Franco-Brasileira na Serra da Capivara — um projeto que se tornaria sua grande obra de vida.
Sob sua liderança, centenas de sítios arqueológicos foram documentados no semiárido piauiense, revelando vestígios de ocupações humanas que remontam a até 50 mil anos atrás — datas que questionaram a teoria tradicional de povoamento das Américas via Estreito de Bering. Entre os locais mais emblemáticos está o abrigo de Pedra Furada, famoso por suas pinturas rupestres milenares.
As descobertas de Guidon ajudaram a ampliar o debate internacional sobre as origens do povoamento americano e colocaram o Brasil no centro das atenções da arqueologia mundial.
Em 1979, com seus esforços, foi criado o Parque Nacional da Serra da Capivara, posteriormente reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO. Para garantir a continuidade das pesquisas e o envolvimento das comunidades locais, ela fundou a Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM) e impulsionou a criação de museus dedicados à arqueologia e à natureza.
Guidon também lutou para proteger o parque da degradação ambiental e da negligência governamental, buscando apoio nacional e internacional para garantir sua preservação.
Ao longo de sua trajetória, recebeu prêmios importantes, como a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico, o Prêmio Itaú Cultural 30 Anos, o título de Cientista do Ano pela SBPC e, mais recentemente, o Prêmio Almirante Álvaro Alberto, honraria máxima da ciência no Brasil.
Sua atuação foi além da ciência: ela promoveu ações sociais em comunidades da região, contribuindo para o desenvolvimento educacional, geração de empregos e proteção do meio ambiente.
Niède Guidon deixa como herança não apenas um acervo arqueológico de valor inestimável, mas também um exemplo de compromisso com a ciência, a cultura e a cidadania. Sua visão transformou a Serra da Capivara em símbolo da história humana e do potencial do Brasil em liderar debates científicos globais. Seu trabalho seguirá inspirando novas gerações de arqueólogos, cientistas e defensores do patrimônio cultural.





