A Academia Brasileira de Letras (ABL) confirmou na manhã desta terça-feira, 17 de junho de 2025, o falecimento do jornalista e escritor Cícero Sandroni, que tinha 90 anos. Integrante da ABL desde 2003, Sandroni presidiu a instituição entre 2008 e 2009, sendo uma figura de destaque no cenário cultural e jornalístico do país.
Uma trajetória marcada pelo jornalismo político e cultural
Nascido em São Paulo no dia 26 de fevereiro de 1935, Cícero Sandroni dedicou mais de seis décadas ao jornalismo, construindo uma carreira sólida e respeitada. Sua estreia na profissão aconteceu em 1954, na Tribuna da Imprensa. Posteriormente, ele passou por importantes veículos da imprensa nacional, como Correio da Manhã, Jornal do Brasil e O Globo, onde se destacou especialmente na cobertura de política externa, com reportagens marcantes como a primeira visita do então líder soviético Nikita Kruschev à Organização das Nações Unidas (ONU).
No início da década de 1960, Sandroni integrou a equipe responsável pela cobertura da inauguração de Brasília, a nova capital do Brasil, evento histórico que simbolizou a modernização do país. Logo em seguida, recebeu o convite para assumir a Secretaria de Imprensa da Prefeitura do Distrito Federal, cargo em que atuou durante os primeiros anos da cidade.
Atuação durante o regime militar e contribuição ao mercado editorial
Durante o período da ditadura militar, Sandroni manteve uma postura crítica, trabalhando novamente na Tribuna da Imprensa, veículo conhecido pela oposição ao regime, sob a direção de Hélio Fernandes. Além disso, colaborou com a revista O Cruzeiro e atuou como editor em publicações como Fatos e Fotos, Manchete e Tendência. Também contribuiu com artigos e resenhas literárias para revistas como Elle e jornais como O Globo.
Além de seu trabalho jornalístico, Sandroni teve papel fundamental no mercado editorial brasileiro. Foi um dos fundadores da editora Edinova, pioneira na publicação de autores latino-americanos e do “nouveau roman” francês, movimento literário que inovou a narrativa tradicional. Também participou da criação da revista Ficção, dedicada à divulgação de contos e que ajudou a lançar novos escritores brasileiros.
Em 1976, Sandroni coordenou um manifesto contra a censura literária vigente na época, que foi assinado por mais de mil intelectuais. O documento foi crucial para impedir a continuidade da proibição de mais de 400 títulos de autores nacionais e estrangeiros, um importante capítulo na luta pela liberdade cultural no Brasil.
Reconhecimento e legado
Em 2007, foi eleito presidente da Academia Brasileira de Letras por unanimidade, presidindo a instituição entre 2008 e 2009. Sua atuação na ABL foi marcada por esforços para valorizar a cultura brasileira e apoiar escritores de diversas gerações.
Sandroni também dirigiu o Departamento de Ação Cultural da Prefeitura do Rio de Janeiro e foi editor de cultura e opinião do Jornal do Commercio. Além disso, participou como jurado em prêmios jornalísticos de prestígio, como o Prêmio Esso.
Entre suas obras literárias, destaca-se o livro O Diabo só chega ao meio-dia, uma de suas contribuições mais reconhecidas à literatura brasileira contemporânea.
Vida pessoal e falecimento
Casado com Laura Constância de Athayde Sandroni, Cícero deixa cinco filhos — Carlos, Clara, Eduardo, Luciana e Paula — e um neto, Pedro.
Segundo a ABL, o jornalista faleceu em sua residência, no bairro do Cosme Velho, na Zona Sul do Rio de Janeiro, em decorrência de choque séptico causado por infecção urinária. O velório será realizado nesta quarta-feira (18), na sede da Academia Brasileira de Letras.
A perda de Cícero Sandroni representa um momento de reflexão sobre a importância do jornalismo comprometido, da literatura e da defesa das liberdades culturais em nosso país. Seu legado permanecerá vivo entre aqueles que valorizam a história e a cultura brasileiras.





