A Polícia Federal concluiu e encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) o relatório final da investigação sobre o uso irregular da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), apontando o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ) e o deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) como envolvidos no caso conhecido como “Abin paralela”.
O documento, entregue no último dia 12, aponta que a agência foi instrumentalizada durante o governo Bolsonaro para monitorar ilegalmente autoridades, adversários políticos, jornalistas e até ministros do STF. O inquérito também relaciona Luiz Fernando Corrêa, atual diretor-geral da Abin, à lista de indiciados.
As investigações tiveram início em março de 2023, já sob o governo Lula, e se concentraram no suposto uso do software espião FirstMile para fins políticos, como proteção da família Bolsonaro em processos judiciais, produção de desinformação e ataque ao sistema eleitoral.
Espionagem e interferência
De acordo com a Polícia Federal, a estrutura paralela dentro da Abin funcionava como um braço político do governo anterior, com Carlos Bolsonaro recebendo informações sigilosas. A quarta fase da operação, em julho de 2024, revelou ligações entre o vereador e perfis que publicavam conteúdos falsos, inclusive contra o senador Alessandro Vieira (MDB-RS).
Carlos Bolsonaro se pronunciou nas redes sociais insinuando perseguição política. “Alguém tinha alguma dúvida que a PF do Lula faria isso comigo? […] Creio que os senhores já sabem: eleições em 2026? Acho que não! É só coincidência!”, escreveu.
Apagamento de dados e obstáculos à investigação
Durante as apurações, a PF apontou que houve tentativas de dificultar o andamento das investigações, inclusive com a formatação de computadores usados durante a gestão anterior da Abin. A corporação também relatou dificuldades impostas por atuais dirigentes da agência, como Corrêa e o ex-diretor-adjunto Alessandro Moretti — este último exonerado em janeiro de 2024.
Ambos foram ouvidos em depoimentos que duraram várias horas. A PF sustenta que as condutas levantam suspeitas de obstrução e irregularidades no uso de recursos de inteligência.
Próximos passos
Com o encerramento da investigação pela PF, o caso segue agora para análise da Procuradoria-Geral da República (PGR), que decidirá se apresenta denúncia formal, solicita novas diligências ou pede o arquivamento.
A Abin, por sua vez, nega qualquer irregularidade e afirma ter colaborado com a investigação, atendendo todas as solicitações feitas pela PF. Nos bastidores, fontes ligadas à agência alegam que a investigação foi conduzida com viés político, visando desgastar a atual gestão.
O desfecho da investigação havia sido adiado algumas vezes. Em dezembro de 2024, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, declarou que havia um esforço concentrado para concluir o caso até o fim daquele ano.
No centro das investigações está o software FirstMile, utilizado pela Abin para rastrear movimentações de dispositivos móveis. Oficiais de inteligência alegam que o problema não está na ferramenta em si, mas no uso indevido dela para fins não autorizados legalmente, como vigilância de pessoas sem justificativa formal.





