Carregando cotação do dólar...

Prefeito de Cuiabá é Acusado de Violência Política Contra Professora em Conferência de Saúde

Prefeito de Cuiabá é acusado de violência política contra professora
Rennan Oliveira/Prefeitura de Cuiabá

A atitude de Abilio Brunini gerou reação de entidades que o acusam de autoritarismo, racismo e misoginia após discussão com professora que usou pronome neutro durante palestra.

O prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini, foi alvo de duras críticas de organizações sociais e acadêmicas após um episódio ocorrido na abertura da 15ª Conferência Municipal de Saúde, realizada nesta quarta-feira (30), na capital mato-grossense. O motivo foi a tentativa do prefeito de impedir a professora e doutora em saúde pública, Maria Inês da Silva Barbosa, de utilizar pronomes neutros durante sua fala no evento.

Maria Inês, reconhecida nacionalmente por seu trabalho nas áreas de saúde pública, racismo estrutural e políticas inclusivas, teve sua participação interrompida após Brunini acusá-la de “doutrinação ideológica”. Diante da pressão, a professora deixou a conferência, o que desencadeou manifestações públicas de repúdio por parte de diversas instituições.

A professora é doutora pela Universidade de São Paulo (USP) e aposentada do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), além de ter contribuído ativamente na formulação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra.

O episódio foi classificado como violência política de gênero e racial por entidades como a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme), Rede de Mulheres Negras do Nordeste, Instituto Odara – da Mulher Negra, IMUNE/MT e a União Estadual dos Estudantes de Mato Grosso. Segundo as organizações, a postura do prefeito foi autoritária, antidemocrática e incompatível com a condução de políticas públicas de saúde.

Em nota, a Abrasco afirmou que a atitude de Brunini revela um padrão de violência institucional e intolerância, “reafirmando os mecanismos de opressão enfrentados por intelectuais negros, indígenas e pela comunidade LGBTQIAPN+”. A Rede de Mulheres Negras também repudiou a tentativa de censura, dizendo que não aceitará o apagamento de identidades, especialmente quando dirigido a uma mulher negra de destaque acadêmico e político.

A Abrasme destacou que “agentes públicos não estão acima da legislação e não devem impor regras pessoais em detrimento dos direitos assegurados pela Constituição e pelo SUS”, e criticou o fato de a professora ter sido ameaçada de expulsão por expressar sua visão sobre inclusão linguística.

O Instituto Odara, com sede na Bahia, relembrou que o prefeito já foi associado a outras condutas controversas, como declarações negacionistas durante a pandemia e gestos interpretados como símbolo de supremacia branca, reforçando um padrão de comportamento marcado por desinformação e autoritarismo.

Também o Instituto de Mulheres Negras de Mato Grosso (IMUNE/MT) declarou que o uso de pronomes neutros é uma forma legítima de inclusão e que o espaço da conferência deveria ser um ambiente plural, de escuta e acolhimento.

A União Estadual dos Estudantes de Mato Grosso, por sua vez, classificou o episódio como uma tentativa clara de silenciamento político, principalmente contra mulheres que atuam em defesa do Sistema Único de Saúde e da democracia.

Resposta da Prefeitura

Em nota oficial, a Prefeitura de Cuiabá declarou que, por orientação direta do prefeito Abilio Brunini, o uso da linguagem neutra está proibido em eventos e espaços promovidos pelo Executivo Municipal. A justificativa apresentada é o “compromisso com a norma culta da língua portuguesa” e com a “neutralidade ideológica das ações públicas”.

Ainda segundo a prefeitura, antes do início da palestra, o prefeito solicitou que a apresentação da professora fosse adaptada à linguagem institucional do governo municipal. A nota afirma que “todas as pessoas têm espaço garantido na gestão, independentemente de raça, religião, orientação sexual ou posição política”, mas que “manifestações ideológicas não devem interferir na condução das políticas públicas”.

A situação segue gerando ampla repercussão em todo o país, reacendendo debates sobre liberdade de expressão, inclusão, violência política de gênero e o papel das instituições públicas diante da diversidade social.

Editor Sucesso