A busca por medicamentos para emagrecimento ganhou força nos últimos anos e transformou as chamadas “canetas emagrecedoras” em um dos produtos mais procurados por pessoas que desejam perder peso. O aumento da demanda, porém, também abriu espaço para um mercado paralelo que utiliza redes sociais, grupos de mensagens e anúncios na internet para oferecer medicamentos que não têm autorização para serem comercializados no Brasil.
Uma reportagem da CNN Brasil revelou que produtos à base de tirzepatida vendidos no Paraguai estão sendo anunciados de maneira ampla nas redes sociais e em grupos do WhatsApp. Os vendedores utilizam uma linguagem popular e estratégias de marketing para atrair consumidores, oferecendo desde informações sobre preços e dosagens até orientações para a compra e o transporte dos produtos para o território brasileiro.
Entre os nomes utilizados para identificar algumas dessas versões comercializadas no Paraguai estão TG, Lipoless, Lipoland, Gluconex e Tirzec. Embora esses medicamentos possam ser comercializados legalmente no país vizinho, a situação é diferente no Brasil. Segundo a reportagem, a comercialização desses produtos em território brasileiro é proibida.
O cenário chama atenção principalmente porque os anúncios aparecem em ambientes digitais de grande alcance. Perfis em redes sociais, vídeos publicados por influenciadores e grupos fechados de aplicativos de mensagens são utilizados para divulgar os produtos e criar uma sensação de facilidade para quem pretende adquiri-los.
A reportagem identificou anúncios que vão além da simples divulgação dos medicamentos. Alguns vendedores oferecem orientações sobre como encontrar os produtos no Paraguai, indicam estabelecimentos, informam valores e explicam maneiras de fazer com que as mercadorias cheguem ao Brasil. Em determinados casos, também são oferecidos serviços complementares, como orientação médica e documentação.
Um dos produtos mencionados na reportagem é o T36, uma versão paraguaia da tirzepatida. Vendedores alegam que o produto ainda não teria sido proibido no Brasil, mas a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou à CNN que o medicamento não está liberado para comercialização no país.
A agência também esclareceu que a importação por pessoa física para uso próprio pode ocorrer de maneira excepcional, desde que sejam observadas as regras aplicáveis e que não exista uma medida específica impedindo o produto. Essa diferença entre uso pessoal e comercialização é explorada pelos vendedores para tentar facilitar a entrada dos medicamentos no território brasileiro.
De acordo com a reportagem, alguns comerciantes chegam a disponibilizar modelos de receitas e oferecem diferentes pacotes de compra. Em um dos casos citados, os valores anunciados variavam conforme a quantidade adquirida: uma caixa custava R$ 1.400, duas saíam por R$ 2.000 e três eram oferecidas por R$ 2.500.
Também foram identificadas ofertas que prometiam ao consumidor evitar os custos de uma viagem ao Paraguai. Os vendedores anunciavam entrega em território brasileiro e apresentavam o serviço como uma alternativa mais prática, incluindo, em determinados casos, contato com profissionais que realizariam atendimentos médicos pela internet.
A reportagem encontrou ainda serviços de consulta, emissão de receitas, atestados, pedidos de exames e elaboração de laudos. Em alguns anúncios, os vendedores apresentavam esses serviços como uma forma de dar respaldo à compra dos medicamentos. A CNN informou ter confirmado que pelo menos um dos profissionais citados possuía registro ativo no Conselho Regional de Medicina.
Outro fator que contribui para a expansão desse mercado é a forte presença do assunto nas redes sociais. Influenciadores e usuários compartilham experiências pessoais, comentam possíveis efeitos, falam sobre dosagens e relatam resultados obtidos com medicamentos para emagrecimento.
A linguagem utilizada também ajuda a popularizar os produtos. Expressões como “queridinhas”, “canetas do Paraguai” e “a mais desejada do momento” aparecem nas publicações e ajudam a transformar medicamentos em itens de consumo altamente desejados.
Em alguns vídeos, influenciadores chegam a mostrar cidades da fronteira, farmácias, preços e formas de compra. Segundo a reportagem, há conteúdos que indicam até vendedores considerados mais acessíveis pelos consumidores. Farmácias paraguaias também utilizam perfis nas redes sociais para divulgar os medicamentos e oferecer descontos para compras em maior quantidade.
Embora a venda online de determinados medicamentos possa ser permitida no Paraguai, a situação muda quando o produto atravessa a fronteira e entra no Brasil sem cumprir as exigências legais. É justamente nesse ponto que o comércio passa a envolver o problema do contrabando e da entrada irregular de medicamentos.
Os números da Receita Federal ajudam a dimensionar o tamanho do problema. Somente na região da tríplice fronteira, foram apreendidas mais de 76 mil unidades de medicamentos, avaliadas em aproximadamente R$ 19 milhões.
Segundo a Receita, esse foi o maior registro histórico relacionado a esse tipo de contrabando. No primeiro semestre de 2026, os medicamentos para emagrecimento chegaram à segunda posição entre os produtos mais contrabandeados na região, ficando atrás apenas dos celulares. O órgão também avalia que organizações criminosas passaram a demonstrar maior interesse pelo comércio ilegal de medicamentos, reduzindo a participação de determinados produtos falsificados, como cigarros.
Ao mesmo tempo em que cresce o mercado ilegal, também aumenta a procura por medicamentos legalizados utilizados no tratamento da obesidade e do controle do peso. Dados do Comex Stat, citados pela CNN Brasil, mostram que as importações de medicamentos da categoria dos hormônios polipeptídicos cresceram mais de 85% nos primeiros sete meses de 2026.
O valor das compras externas chegou a US$ 1,51 bilhão no período, contra US$ 813 milhões registrados nos primeiros sete meses do ano anterior. A alta está relacionada à procura por medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida.
É importante, entretanto, diferenciar os medicamentos que possuem autorização dos produtos comercializados de maneira irregular. A reportagem destaca que existem medicamentos legalizados no país e que a Anvisa vem acompanhando o mercado. A semaglutida, por exemplo, passou a ser produzida nacionalmente após a quebra de patente, e a agência reguladora aprovou recentemente uma versão genérica do medicamento.
O crescimento da oferta clandestina nas redes sociais traz uma preocupação adicional: o consumidor pode ter dificuldade para saber exatamente a origem, a composição e as condições de armazenamento do produto adquirido. Medicamentos que precisam de controle adequado de temperatura e conservação podem apresentar riscos quando transportados ou armazenados de maneira inadequada.
Além disso, a compra fora dos canais autorizados pode dificultar a identificação do fabricante e a comprovação da procedência. A aparência de uma embalagem ou a promessa feita por um vendedor na internet não são suficientes para garantir a qualidade e a segurança de um medicamento.
A facilidade encontrada nas redes sociais também pode criar uma falsa sensação de segurança. Anúncios bem produzidos, depoimentos de usuários, descontos e supostas orientações profissionais podem fazer com que um produto ilegal pareça semelhante a um medicamento vendido regularmente em farmácias autorizadas.
Por isso, especialistas e autoridades reforçam a importância de buscar orientação de profissionais habilitados e verificar se o medicamento possui autorização para comercialização no Brasil. A popularização das chamadas “canetas emagrecedoras” não elimina a necessidade de acompanhamento médico nem transforma produtos importados de maneira irregular em medicamentos autorizados.
O caso também evidencia como o ambiente digital pode ser utilizado para ampliar rapidamente mercados clandestinos. O que antes dependia de contatos presenciais ou de compradores que viajavam até regiões de fronteira agora pode ser encontrado com poucos cliques, por meio de anúncios, vídeos, grupos de mensagens e perfis comerciais.
Com o aumento da procura, a fiscalização se torna um desafio ainda maior para as autoridades brasileiras. A Receita Federal já registrou números recordes de apreensões, enquanto a Anvisa acompanha a circulação de produtos que não possuem autorização para serem comercializados no país.
A orientação mais importante para o consumidor é não tratar medicamentos para emagrecimento como produtos comuns de internet. Antes de adquirir qualquer substância, é fundamental verificar sua regularidade no Brasil, procurar orientação médica e utilizar canais legalmente autorizados.
A expansão desse mercado mostra que a popularidade das canetas emagrecedoras ultrapassou o ambiente médico e passou a movimentar também as redes sociais e o comércio clandestino. O desafio agora é impedir que a busca por resultados rápidos coloque consumidores em contato com produtos sem garantia de procedência e fora das regras sanitárias brasileiras.





