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Brasil terá fábrica de pele de tilápia para tratar queimaduras

Brasil terá fábrica de pele de tilápia para tratar queimaduras

O Brasil está prestes a dar um importante passo na área da saúde e da inovação. Uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC), que utiliza pele de tilápia como curativo biológico para o tratamento de queimaduras, deverá ganhar uma fábrica em escala industrial no município de Jaguaribara, no interior do Ceará.

A unidade será a primeira do mundo dedicada à produção industrial desse tipo de curativo e tem previsão de começar a funcionar em 2028. O projeto reúne o Governo do Ceará, a Prefeitura de Jaguaribara e a empresa Biotec Medical Xenograft Engineering, responsável pela transformação da tecnologia desenvolvida no ambiente acadêmico em um produto produzido em maior escala.

A novidade representa o resultado de aproximadamente uma década de pesquisas realizadas no Ceará. O que começou dentro dos laboratórios da UFC agora caminha para uma nova etapa, com a possibilidade de levar a tecnologia para um número muito maior de pacientes e hospitais.

A proposta chama atenção justamente por transformar um material que normalmente seria descartado em uma alternativa de uso médico. A pele da tilápia passa por processos específicos para que possa ser utilizada como um curativo biológico sobre feridas.

Atualmente, a tecnologia é indicada principalmente para queimaduras de segundo grau. Antes da aplicação, a área lesionada precisa ser devidamente preparada pelos profissionais de saúde, incluindo a limpeza da ferida e a retirada de tecidos que não estejam viáveis.

Para chegar ao formato utilizado no tratamento, a pele passa por um processo de liofilização, que retira a água do material e permite que ele seja posteriormente reidratado em solução fisiológica. Depois de preparada, a pele é colocada sobre a região queimada, ultrapassando um pouco os limites da lesão para acompanhar as mudanças que ocorrem durante o processo de cicatrização.

Uma das características que mais chamam atenção é a capacidade de o material aderir à ferida. Segundo as informações apresentadas na reportagem, aproximadamente 16 a 18 horas após a aplicação, a pele de tilápia tende a permanecer aderida ao local durante o período de regeneração, que pode durar entre 15 e 21 dias.

Em determinados casos, são necessárias apenas uma ou duas trocas do curativo durante todo o processo. Essa característica pode representar uma diferença importante em relação aos tratamentos convencionais, que muitas vezes exigem substituições frequentes dos curativos e podem causar desconforto e dor ao paciente.

A futura fábrica deverá iniciar suas atividades com uma produção estimada em 4.500 curativos por dia. A expectativa é que, já no segundo ano de funcionamento, a capacidade possa alcançar aproximadamente 13 mil unidades diariamente.

A instalação em Jaguaribara também tem relação com a cadeia produtiva da tilápia existente na região. Dessa maneira, a escolha do município pode facilitar o acesso à matéria-prima necessária para a fabricação dos curativos e, ao mesmo tempo, contribuir para o desenvolvimento econômico local.

A iniciativa também possui potencial para gerar empregos e movimentar diferentes setores da economia, além de aproximar ainda mais a pesquisa científica brasileira da indústria e do sistema de saúde.

Além do impacto médico, a tecnologia desenvolvida no Ceará pode representar uma economia significativa para os cofres públicos.

Dados do Ministério da Saúde citados na reportagem mostram que o Sistema Único de Saúde registrou 32,9 mil internações provocadas por queimaduras em 2025, com despesas de aproximadamente R$ 92,5 milhões. Em 2026, até julho, foram contabilizadas cerca de 16 mil internações, com gastos de R$ 46,8 milhões.

De acordo com a empresa envolvida no projeto, a utilização do curativo de pele de tilápia poderia reduzir em 50,5% os gastos relacionados aos tratamentos convencionais. A possibilidade está ligada, entre outros fatores, ao baixo custo da matéria-prima e à menor necessidade de trocas do curativo.

Se os resultados previstos forem confirmados em larga escala, a tecnologia poderá representar não apenas uma inovação médica, mas também uma alternativa economicamente interessante para o sistema público de saúde.

A história dessa tecnologia começou muito antes da construção da fábrica. Os pesquisadores da UFC passaram anos realizando estudos laboratoriais e clínicos para avaliar a segurança e a eficácia da utilização da pele de tilápia em seres humanos.

Os primeiros testes em humanos começaram em 2015, quando os pesquisadores avaliaram inicialmente a segurança do material. A partir daí, novos estudos ajudaram a aperfeiçoar o processo e a transformar a pele do peixe em um produto adequado para utilização médica.

A pesquisa também demonstrou que a tecnologia poderia ter aplicações além das queimaduras. O material já foi utilizado em procedimentos de reconstrução vaginal e vem sendo estudado para outras possibilidades dentro da medicina regenerativa.

Esse percurso mostra como uma ideia aparentemente simples pode se transformar em uma inovação de grande impacto quando recebe investimento em pesquisa, desenvolvimento científico e testes clínicos.

A construção da fábrica no Ceará também tem um significado especial para a ciência brasileira. Uma tecnologia criada e desenvolvida por pesquisadores de uma universidade pública nordestina está chegando ao estágio de produção industrial e poderá alcançar pacientes em diferentes partes do país.

A expectativa é que, além de atender ao mercado brasileiro, a produção possa futuramente abrir espaço para exportações. Informações sobre o projeto apontam interesse internacional na tecnologia, o que poderia ampliar ainda mais o alcance de uma pesquisa que nasceu dentro de uma instituição pública brasileira.

O projeto ainda representa uma forma de aproveitar melhor um material que normalmente teria pouco valor comercial. A pele da tilápia, que costuma ser descartada durante o processamento do peixe, passa a ter uma nova finalidade e pode ser transformada em um produto de interesse médico.

A futura fábrica de Jaguaribara simboliza uma mudança importante: uma descoberta científica deixa de estar restrita aos laboratórios e começa a ganhar estrutura para chegar a uma escala capaz de atender uma demanda maior.

Para pacientes vítimas de queimaduras, a tecnologia pode significar menos trocas de curativos, potencial redução da dor e um processo de recuperação mais confortável. Para o sistema público, existe a perspectiva de redução de custos. Para a ciência brasileira, o projeto mostra o potencial que universidades públicas possuem para desenvolver soluções capazes de gerar impacto social e econômico.

Ainda há etapas importantes até que a produção industrial esteja plenamente estabelecida, mas a previsão de funcionamento para 2028 coloca o Ceará no centro de uma iniciativa inédita no mundo.

A transformação da pele de tilápia em um curativo biológico é, portanto, um exemplo de como pesquisa, inovação e aproveitamento de recursos podem se unir para criar novas possibilidades na área da saúde. Uma ideia desenvolvida no Nordeste brasileiro pode, nos próximos anos, chegar a hospitais de diferentes regiões e ajudar a mudar a forma como determinados tipos de queimaduras são tratados.

Ana Carolina