O Brasil avançou em uma nova parceria internacional para reforçar o abastecimento de fertilizantes e reduzir os riscos provocados pela dependência de fornecedores estrangeiros. O acordo firmado com o Marrocos ganha importância em um momento de pressão sobre o mercado global de insumos agrícolas, marcado por conflitos geopolíticos, dificuldades logísticas e aumento dos custos de produção.
A iniciativa busca ampliar a segurança no fornecimento de fertilizantes utilizados pelo agronegócio brasileiro, setor que depende fortemente das importações para manter a produtividade das lavouras. Atualmente, mais de 80% dos fertilizantes consumidos no país vêm do exterior, o que deixa produtores brasileiros expostos às oscilações do mercado internacional.
A aproximação com o Marrocos representa, portanto, uma tentativa de diversificar as fontes de fornecimento. Em vez de depender de um número limitado de países, o Brasil procura ampliar sua rede de parceiros comerciais e garantir que os insumos necessários para as próximas safras estejam disponíveis em quantidade suficiente.
O movimento ocorre em uma fase particularmente delicada para o mercado de fertilizantes. Os preços internacionais continuam pressionados, enquanto produtores rurais brasileiros enfrentam margens mais apertadas e dificuldades financeiras. Segundo o Rabobank, a demanda brasileira por fertilizantes deve cair em 2026, com uma estimativa de entrega de aproximadamente 45,1 milhões de toneladas, abaixo das 49,1 milhões de toneladas registradas em 2025.
A situação é ainda mais preocupante no segmento de fertilizantes fosfatados. O mercado vem sofrendo com a menor disponibilidade de matérias-primas, especialmente o enxofre, utilizado na fabricação desses produtos. As restrições provocadas pelo cenário internacional elevaram os custos e dificultaram a reposição dos estoques.
Uma das consequências é que produtores brasileiros passaram a adiar compras, reduzir aplicações ou buscar alternativas para controlar os custos. A Agroconsult estima que as entregas de fertilizantes no Brasil podem chegar a 45,31 milhões de toneladas em 2026, podendo ficar ainda abaixo desse nível dependendo da evolução das condições de mercado.
Nesse cenário, qualquer acordo que ajude a garantir novas fontes de fertilizantes ganha importância estratégica para o Brasil.
O Marrocos possui uma posição relevante no mercado internacional de fertilizantes, especialmente na produção de fosfatados. A parceria com o país africano pode contribuir para ampliar o acesso brasileiro a esses insumos e reduzir parte da vulnerabilidade provocada pela concentração das compras externas.
A diversificação também funciona como uma espécie de proteção contra crises internacionais. Quando um país depende de poucos fornecedores, qualquer conflito, sanção, interrupção logística ou problema de produção pode provocar impactos imediatos nos preços e na disponibilidade dos produtos.
O agronegócio brasileiro é particularmente sensível a esse tipo de situação porque grandes culturas, como soja, milho e outras commodities, dependem do uso adequado de nutrientes para alcançar bons níveis de produtividade.
A questão dos fertilizantes ganhou ainda mais relevância em 2026 devido às consequências dos conflitos no Oriente Médio. Parte importante do comércio internacional de insumos passa por rotas estratégicas afetadas pelas tensões geopolíticas. O Estreito de Ormuz, por exemplo, é uma rota importante para o transporte de matérias-primas e fertilizantes, e as interrupções provocadas pelo conflito afetaram o mercado mundial.
Além da questão geopolítica, existe uma preocupação com a capacidade brasileira de produzir internamente uma parcela maior dos fertilizantes utilizados nas lavouras.
O governo brasileiro vem adotando medidas para tentar diminuir essa dependência. Recentemente, foi sancionada uma lei que criou o Profert, programa destinado a estimular investimentos na indústria nacional de fertilizantes e matérias-primas. A legislação prevê mecanismos de incentivo, financiamento e estímulo à produção doméstica.
A estratégia brasileira, portanto, passa por duas frentes. De um lado, o país busca ampliar a produção nacional. De outro, procura estabelecer relações comerciais com diferentes fornecedores internacionais para evitar problemas de abastecimento.
A parceria com o Marrocos se encaixa justamente nessa segunda estratégia.
Para o produtor rural, a ampliação dos fornecedores pode trazer maior previsibilidade. Em um mercado sujeito a grandes oscilações, ter diferentes origens disponíveis pode ajudar a reduzir riscos de desabastecimento e, dependendo das condições internacionais, contribuir para uma maior competição entre fornecedores.
Entretanto, o acordo não significa que o problema dos fertilizantes esteja completamente resolvido. A disponibilidade efetiva dos produtos dependerá de fatores como produção, logística internacional, preços, condições de transporte e demanda.
Outro ponto importante é o custo. Mesmo com novos fornecedores, os preços dos fertilizantes continuam sujeitos às variações do mercado mundial. O produtor brasileiro precisa considerar não apenas o preço do produto na origem, mas também frete, câmbio, custos portuários, armazenamento e distribuição.
A logística é um dos grandes desafios. O Brasil é um país de dimensões continentais, e o fertilizante importado precisa chegar aos principais polos produtores depois de desembarcar nos portos. Qualquer aumento no custo ou atraso nessa cadeia pode afetar diretamente o preço final pago pelo agricultor.
Por isso, o governo também vem buscando acelerar o desembarque dos fertilizantes nos portos brasileiros. Uma portaria publicada recentemente recomendou prioridade para essas cargas durante os próximos meses, justamente para reduzir filas, custos de armazenagem e dar maior previsibilidade ao produtor.
A necessidade de garantir o abastecimento é especialmente importante porque o Brasil está entre os maiores produtores agrícolas do mundo. A expansão da produção de soja, milho, café, algodão e outras culturas depende de uma cadeia de insumos eficiente e previsível.
Qualquer dificuldade prolongada no acesso aos fertilizantes pode resultar em redução da aplicação nas lavouras e, consequentemente, afetar a produtividade.
Dados recentes já mostram uma retração nas entregas de fertilizantes. No primeiro semestre de 2026, o Brasil recebeu 19,02 milhões de toneladas, queda de 5,4% em relação aos 20,11 milhões de toneladas registrados no mesmo período de 2025.
Nesse contexto, a parceria com o Marrocos ganha importância não apenas comercial, mas também estratégica.
A diversificação dos fornecedores pode ajudar o Brasil a construir uma cadeia de abastecimento mais resistente a crises internacionais. Ao mesmo tempo, o aumento da produção nacional continua sendo fundamental para diminuir a exposição do país às oscilações externas.
O objetivo de longo prazo é criar um equilíbrio entre produção doméstica e importações, evitando que o agronegócio fique excessivamente dependente de decisões tomadas por governos ou empresas estrangeiras.
O acordo com o Marrocos também reforça a importância das relações comerciais entre os dois países. Para o Brasil, o interesse está principalmente em garantir acesso a insumos fundamentais para sua agricultura. Para o Marrocos, a parceria amplia sua presença em um dos maiores mercados agrícolas do planeta.
A tendência é que a segurança alimentar e a segurança dos insumos agrícolas ganhem cada vez mais importância nas negociações internacionais. Em um cenário marcado por guerras, restrições comerciais e mudanças nas rotas de transporte, garantir fertilizantes tornou-se uma questão estratégica para países produtores de alimentos.
O Brasil, que pretende ampliar sua produção agrícola nos próximos anos, precisa assegurar que seus produtores tenham acesso aos nutrientes necessários para manter a produtividade.
Por isso, acordos como o firmado com o Marrocos podem representar uma peça importante dentro de uma estratégia mais ampla de segurança de abastecimento.
A expectativa é que a parceria ajude a ampliar as alternativas disponíveis no mercado brasileiro e reduza os riscos de uma eventual falta de fertilizantes. O resultado, porém, dependerá da evolução do mercado internacional e da capacidade de transformar o acordo em fluxo efetivo de produtos para o país.
Enquanto isso, o governo brasileiro deverá continuar trabalhando para aumentar a produção nacional, melhorar a infraestrutura logística e estabelecer novas parcerias internacionais.
Para o agronegócio, o desafio permanece: garantir fertilizantes suficientes, a preços competitivos e no momento adequado para atender às necessidades das próximas safras.
Em um país cuja economia depende fortemente da produção agrícola, garantir o acesso aos fertilizantes deixou de ser apenas uma questão comercial. Trata-se de um componente fundamental da estratégia brasileira para manter a produtividade, a competitividade das exportações e a segurança do abastecimento de alimentos.





