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A arte como refúgio: bienais, festivais e mostras ganham força em tempos de crise

Foto: Reprodução
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Em meio a um cenário global marcado por crises políticas, econômicas e ambientais, a arte tem se consolidado como um refúgio e um instrumento de resistência. Bienais, festivais e mostras ao redor do mundo vêm ganhando força ao promover diálogos urgentes sobre identidade, ancestralidade e futuro. Esses eventos não apenas revelam novas perspectivas sobre os desafios contemporâneos, como também fortalecem a cultura como ferramenta de transformação social.

A 32ª Bienal de Pontevedra, na Espanha, é um exemplo expressivo dessa tendência. Intitulada “Volver a ser humanos. Ante el dolor de los demás”, a mostra reúne 60 artistas de 28 nacionalidades em 13 sedes diferentes da cidade. Com forte presença de mulheres e artistas emergentes, as obras abordam temas como guerra, migração, crise climática e empatia, propondo uma arte que é, ao mesmo tempo, crítica e poética. Na mesma linha, a University Art Biennial – Art Week, realizada na ilha espanhola de Mallorca, reúne 300 artistas e acadêmicos de 21 universidades para promover intercâmbio, pensamento crítico e reconhecimento de jovens talentos, por meio de prêmios e residências artísticas. Ainda em Mallorca, a feira SUMMA destacou galerias latino-americanas e trabalhos que dialogam com tecnologia e ancestralidade, como a obra com inteligência artificial “High Meshes”, do artista espanhol Solimán López.

No Brasil, o fortalecimento da arte como resposta ao momento atual também é evidente. Em São Paulo, a artista Regina Silveira exibe no Instituto de Arte Contemporânea (IAC) a mostra “Modus Operandi”, com vídeos, maquetes e documentos que revelam sua trajetória e processo criativo. Paralelamente, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-SP) abriga a exposição “Vetores‑Vertentes: Fotógrafas do Pará”, que reúne obras de 11 mulheres amazônicas com olhares potentes sobre território, memória, identidade e representação feminina e indígena. A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) também se destaca como espaço de resistência cultural: em junho, recebeu as artistas Guadalupe Carrizo, da Argentina, e Daniela Serna, da Colômbia, para a 2ª edição das Jornadas de Ecologia Artística. A residência propôs atividades como oficinas e caminhadas criativas que conectam arte e meio ambiente a partir de uma perspectiva de escuta ativa. Já em Nova Friburgo (RJ), o projeto “NATIVA” levou o público a ambientes sensoriais e experiências imersivas que tratam da desconexão entre o ser humano e a natureza, com obras de artistas como Sofia Seda e Dona Peta Arara.

O cenário também tem revelado novos nomes da arte contemporânea brasileira com crescente projeção internacional. A pintora carioca Marcela Cantuária, por exemplo, tem levado seu trabalho a instituições como o Pérez Art Museum (EUA) e espaços culturais em Lisboa. Suas obras dialogam com movimentos sociais, questões ambientais e feminismo latino-americano. Outro destaque é a plataforma House Of Ayedun (HOA), criada pela artista e curadora Igi Lola Ayedun em São Paulo, com expansão para Londres. A iniciativa atende artistas periféricos e racializados, oferecendo estrutura, curadoria, mentoria e apoio psicológico. Participando de feiras como SP-ARTE e Frieze, a HOA se firma como polo de visibilidade e equidade na cena artística. Já o coletivo VERVE, formado por 16 artistas brasileiros, atua de forma colaborativa, cruzando linguagens como artes visuais, literatura e design, com foco em produção estética e crítica contemporânea.

A força desses movimentos e eventos evidencia a centralidade da arte em tempos de instabilidade. Seja refletindo sobre a crise climática, o racismo estrutural, os legados coloniais ou a busca por pertencimento, a produção cultural contemporânea resiste, denuncia e propõe. Longe de ocupar um espaço decorativo ou marginal, a cultura assume papel ativo na construção de novos imaginários e políticas do sensível. Em tempos sombrios, ela reafirma sua potência como lugar de escuta, memória e invenção de futuros mais plurais e justos.

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