A definição do segundo turno da eleição presidencial de 2026, que colocará frente a frente Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), começou a provocar movimentações entre os candidatos que ficaram pelo caminho no primeiro turno. Entre os nomes que disputaram a Presidência, Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD) optaram, neste primeiro momento, por não declarar apoio a nenhum dos dois concorrentes que seguem na disputa.
A postura adotada pelos três candidatos evidencia uma das principais características da eleição deste ano: a forte divisão entre os dois polos que avançaram para a segunda etapa e a resistência de parte do eleitorado e de lideranças políticas em aderir imediatamente a um dos lados. Cury, Renan e Caiado terminaram a primeira fase da eleição defendendo propostas próprias e, após a divulgação do resultado, mantiveram críticas à polarização que marcou a campanha.
Augusto Cury, que terminou o primeiro turno na terceira colocação, afirmou que não pretende declarar apoio a Lula ou a Flávio Bolsonaro. O candidato do Avante defendeu que o vencedor da eleição considere propostas apresentadas pelas candidaturas derrotadas e procure conduzir o país com uma perspectiva de pacificação.
Em sua manifestação após o resultado, Cury também alertou para os riscos que, segundo ele, podem surgir de um ambiente político excessivamente marcado pelo confronto. O escritor havia construído sua campanha destacando temas relacionados à educação, saúde mental, desenvolvimento humano e mudanças na forma de fazer política. Após ficar fora do segundo turno, ele sinalizou que não pretende simplesmente transferir sua base eleitoral para uma das candidaturas restantes.
A posição de Cury coloca em evidência uma questão que deverá ganhar força nas próximas semanas: para onde irão os votos dos candidatos eliminados no primeiro turno? Com a disputa concentrada entre Lula e Flávio Bolsonaro, os eleitores que escolheram outras opções precisarão decidir se votarão em um dos dois, se optarão pelo voto nulo ou branco ou se simplesmente não comparecerão às urnas.
Renan Santos, candidato do Missão, também adotou uma postura de afastamento em relação aos dois concorrentes. Durante a campanha, Renan havia se apresentado como uma alternativa ao que classificava como a velha polarização política brasileira. Após o resultado, voltou a fazer críticas principalmente ao grupo ligado ao bolsonarismo e demonstrou resistência em apoiar Flávio Bolsonaro.
O candidato também avaliou de forma crítica o desempenho de Flávio durante a campanha e fez questionamentos sobre a situação política envolvendo Jair Bolsonaro. O ex-presidente encontra-se em prisão domiciliar, cenário que continua sendo um dos assuntos presentes no debate político nacional e que também deverá influenciar as discussões do segundo turno.
Renan havia adotado uma posição bastante crítica em relação a Lula desde o início da campanha, mas também deixou claro que não pretendia aderir automaticamente à candidatura de Flávio. Dessa forma, sua posição mantém aberta a possibilidade de seus eleitores tomarem decisões individuais, sem uma orientação formal da candidatura.
Ronaldo Caiado, por sua vez, terminou a eleição presidencial também sem anunciar apoio imediato a nenhum dos dois nomes que avançaram para o segundo turno. O ex-governador de Goiás e candidato pelo PSD havia apostado durante a campanha na construção de uma alternativa ao confronto entre petistas e bolsonaristas.
Caiado criticou diversas vezes a polarização e defendeu uma campanha voltada para a apresentação de propostas. Após o resultado, afirmou que qualquer decisão sobre eventual apoio deveria ser discutida com a direção de seu partido.
A posição do PSD acabou ganhando contornos mais amplos. A legenda decidiu liberar seus filiados para que cada um pudesse definir seu posicionamento no segundo turno, sem estabelecer uma orientação nacional obrigatória. A decisão preserva a autonomia de diferentes grupos dentro do partido e evita que a sigla seja obrigada a escolher formalmente entre Lula e Flávio Bolsonaro.
A ausência de uma declaração de apoio por parte de Caiado também chama atenção pelo peso político que ele possui. O ex-governador governou Goiás por dois mandatos e deixou o cargo para disputar a Presidência. Durante a eleição, procurou se apresentar como uma alternativa de centro-direita, tentando atrair eleitores que não se identificavam nem com o PT nem com o bolsonarismo.
Caiado também lamentou, após o primeiro turno, o que considerou uma falta de debates mais profundos sobre os problemas do país. Para ele, a disputa presidencial acabou concentrada em torno da polarização entre os dois candidatos que agora disputarão o segundo turno.
A situação dos três candidatos revela, portanto, um cenário diferente daquele observado em outras eleições, quando os derrotados no primeiro turno rapidamente anunciavam apoio a uma das candidaturas classificadas. Em 2026, pelo menos neste primeiro momento, parte dos principais nomes que ficaram fora da disputa final preferiu manter distância dos dois polos.
A postura também pode ser interpretada como uma tentativa de preservar a identidade política construída durante a campanha. Para candidatos que apresentaram propostas como alternativas à polarização, apoiar imediatamente um dos dois nomes que representam os principais campos políticos do país poderia gerar questionamentos entre seus próprios eleitores.
Ao mesmo tempo, o posicionamento dos derrotados não significa necessariamente que seus eleitores seguirão suas orientações. Em uma eleição presidencial de segundo turno, a transferência de votos raramente ocorre de maneira automática. Os eleitores podem considerar diversos fatores antes de definir sua escolha final.
O cenário coloca pressão adicional sobre Lula e Flávio Bolsonaro. Além de defenderem suas próprias bases eleitorais, os dois terão de buscar setores do eleitorado que demonstraram, no primeiro turno, preferência por outras candidaturas.
Para Flávio Bolsonaro, uma das principais tarefas será tentar ampliar sua votação entre eleitores de centro e de direita que escolheram candidatos como Caiado e outros nomes no primeiro turno. A vantagem conquistada na primeira etapa da eleição dá ao candidato do PL uma posição favorável, mas não garante a vitória definitiva.
Lula, por outro lado, terá o desafio de recuperar terreno e conquistar parte dos votos que foram destinados aos demais candidatos. O petista deverá intensificar a busca por alianças e tentar convencer eleitores que rejeitam o bolsonarismo, mas que não necessariamente votaram no PT na primeira etapa.
A eleição entra, assim, em uma nova fase, marcada pela tentativa de Lula e Flávio de conquistar os votos que ficaram espalhados entre as demais candidaturas. A posição de Cury, Renan Santos e Caiado mostra que uma parcela do cenário político ainda resiste à ideia de escolher imediatamente entre os dois polos que dominaram o primeiro turno.
A crítica à polarização deverá continuar sendo um dos temas presentes no debate eleitoral até a votação definitiva. Enquanto os candidatos classificados para o segundo turno buscarão ampliar suas bases, os derrotados terão de decidir se manterão a neutralidade, se apoiarão algum dos concorrentes ou se deixarão seus eleitores livres para escolher.
O segundo turno, marcado para 25 de outubro, deverá definir não apenas quem ocupará a Presidência da República a partir de 2027, mas também o tamanho da influência que cada grupo político terá no novo cenário nacional.
A ausência de apoio formal de Cury, Renan Santos e Caiado, portanto, acrescenta uma nova camada à disputa. Em vez de uma adesão imediata aos dois candidatos restantes, os três escolheram enfatizar suas críticas ao ambiente de polarização e manter suas próprias posições políticas.
Com a campanha entrando em uma etapa decisiva, Lula e Flávio Bolsonaro terão agora pouco tempo para ampliar alianças, apresentar propostas e conquistar os eleitores que ainda não decidiram seu voto. O comportamento desse eleitorado poderá ser determinante para definir o resultado da eleição presidencial de 2026.





