A Cracolândia, por décadas concentrada na região central de São Paulo, passa por um processo de fragmentação que tem provocado impactos urbanos, sociais e humanitários em diversas regiões da cidade e até em municípios vizinhos. A política de dispersão adotada pela Prefeitura, com apoio das forças de segurança, reacendeu o debate sobre a eficácia e os limites da repressão frente a uma crise profundamente enraizada em vulnerabilidades sociais.
Desde 2022, uma série de ações coordenadas entre Prefeitura, Polícia Militar e Guarda Civil Metropolitana (GCM) resultou na desarticulação de aglomerações históricas de usuários de crack no centro paulistano. Embora essas operações tenham reduzido a presença visível de usuários na região da Luz e da Praça Princesa Isabel, os efeitos colaterais dessa estratégia se espalham por outras áreas da cidade — como Campos Elíseos, Lapa e bairros da zona leste — e até municípios vizinhos, como Guarulhos, que investiga o possível transporte forçado de usuários para seus territórios.
Entidades como a Defensoria Pública têm denunciado a criação de espaços de confinamento e práticas de violência institucional. De acordo com relatos, usuários são encurralados em ruas cercadas por forças de segurança, sem acesso a serviços públicos de saúde e acolhimento, o que tem agravado o sofrimento de pessoas já em situação extrema.
Um dos críticos mais enfáticos da atual política é o padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua. Em entrevistas recentes, ele aponta que a repressão tem sido marcada por violência, falta de diálogo e ausência de políticas de cuidado. “Há tortura, há medo, e não há alternativa real para essas pessoas além da fuga e da dor”, afirmou o religioso.
Para Lancellotti, ações que miram apenas a retirada dos usuários do espaço urbano sem oferecer acolhimento e tratamento digno apenas deslocam o problema geograficamente, mantendo — ou até aprofundando — as feridas sociais que alimentam o ciclo da dependência química.
O prefeito Ricardo Nunes, por outro lado, defende as medidas adotadas como parte de uma estratégia ampla de combate ao tráfico de drogas, redução da violência urbana e revitalização do centro da capital. Em entrevista recente, Nunes destacou que “não se trata apenas de polícia”, mas de ações integradas entre secretarias, como saúde e assistência social.
No entanto, a apresentação de resultados concretos ainda é limitada. Apesar da redução da concentração de usuários em pontos específicos, não há clareza sobre a efetiva inserção desses indivíduos em programas de reabilitação ou moradia.
Pesquisadores, urbanistas e profissionais da saúde pública têm alertado para os riscos de uma política pautada apenas na repressão e na remoção. A experiência histórica mostra que ações que ignoram os determinantes sociais da dependência — como pobreza, desemprego, traumas, ausência de políticas habitacionais e saúde mental — apenas perpetuam o problema.
“Enquanto não houver um modelo de acolhimento eficaz, com investimento contínuo em saúde e trabalho, a Cracolândia continuará a existir — só que invisível aos olhos do centro e espalhada pelas periferias”, afirma uma assistente social que atua na região da Luz.
O processo de dispersão da Cracolândia em São Paulo revela uma cidade em disputa: de um lado, o desejo de “limpeza urbana” e revitalização econômica do centro; do outro, a invisibilização de vidas marcadas pela exclusão, pela dependência química e pelo abandono do Estado.
Sem um pacto intersetorial robusto, que una repressão ao crime com garantia de direitos e acesso à saúde e à moradia, a cidade corre o risco de apenas empurrar seus problemas para fora de vista — e, assim, comprometer qualquer chance de solução estrutural.





