O cenário migratório no Brasil sofreu uma importante mudança neste ano de 2025. Segundo dados divulgados pelo Painel da Migração, do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), os pedidos de refúgio feitos por cidadãos cubanos ultrapassaram, pela primeira vez em 10 anos, o número de solicitações feitas por venezuelanos. Entre janeiro e março deste ano, foram registradas 9.467 solicitações de refúgio por parte de cubanos, enquanto os venezuelanos realizaram 5.794 pedidos no mesmo período.
Essa mudança significativa reflete novas dinâmicas nas rotas migratórias para o Brasil e revela como a conjuntura política, econômica e social em Cuba tem impactado diretamente o fluxo de pessoas que buscam melhores condições de vida em nosso país.
A entrada dos migrantes ocorre principalmente pela região Norte do Brasil
A maior parte dessas solicitações ocorre em cidades fronteiriças do Norte do país. O município de Bonfim, em Roraima, que faz divisa com a Guiana, é um dos principais pontos de entrada para os migrantes cubanos. Outra região bastante utilizada é a cidade de Oiapoque, no Amapá, que está na fronteira com a Guiana Francesa. Também são registrados fluxos migratórios pela fronteira entre o Amapá e o Suriname, o que reforça a importância do Norte brasileiro como porta de entrada para os que buscam refúgio.
Os pedidos de refúgio correspondem à situação de pessoas que saem de seus países de origem por motivos que ameaçam sua segurança, como perseguições políticas, raciais ou religiosas, violações de direitos humanos ou conflitos armados. O retorno dessas pessoas para suas nações de origem pode representar risco à integridade física e à vida, justificando a busca pelo status de refugiado.
Crescimento da migração cubana já era observado desde 2022
O crescimento das solicitações de refúgio por cubanos não é algo recente. Dados do DataMigra, plataforma oficial do Ministério da Justiça, já apontavam para esse aumento a partir de 2022. Embora, no acumulado anual, os venezuelanos ainda ocupem a primeira posição em número de pedidos, os cubanos vêm se aproximando e, neste primeiro trimestre de 2025, assumiram a liderança no total de solicitações.
Brasil como ponto estratégico para migrantes cubanos
Apesar do aumento expressivo no número de pedidos de refúgio, nem todos os cubanos que chegam ao Brasil permanecem no país. Segundo o pesquisador João Carlos Jarochinski Silva, coordenador da Rede Internacional Migração e Refúgio (Redimir) e professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR), muitos utilizam o Brasil como um ponto de trânsito para seguir viagem rumo a outros países da América Latina, como Uruguai e Estados Unidos.
Entretanto, a política de deportação em massa adotada pelos Estados Unidos tem dificultado a chegada desses migrantes ao território norte-americano. Isso tem provocado uma mudança no fluxo migratório, com muitos refugiados alterando seus planos e buscando alternativas dentro da América Latina.
“O Brasil acaba sendo uma rota estratégica para aqueles que deixam Cuba, mesmo que nem todos tenham a intenção de permanecer por aqui. A situação nos Estados Unidos, marcada pela dificuldade de entrada e pelo temor de deportação, tem feito com que muitos migrantes reconsiderem seus destinos”, explica João Carlos.
Impactos regionais das mudanças no cenário migratório
As mudanças na migração cubana e venezuelana para o Brasil também refletem alterações mais amplas no contexto da América Latina. O aumento dos pedidos de refúgio por cubanos revela uma crise humanitária que, até então, não estava tão visível como a crise venezuelana.
Além disso, as políticas migratórias dos países vizinhos, especialmente dos Estados Unidos, influenciam diretamente os movimentos dos migrantes, que precisam buscar rotas alternativas e muitas vezes enfrentar condições precárias e inseguras durante suas jornadas.





