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Depoimento de Bolsonaro ao STF: discurso alinhado com sua base e críticas ao Judiciário marcam interrogatório

Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo/Reprodução
Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo/Reprodução

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi ouvido nesta terça-feira (10) pelo Supremo Tribunal Federal (STF), como parte do processo que apura sua suposta participação em uma tentativa de golpe de Estado após o resultado das eleições de 2022. O depoimento ocorreu sob a supervisão do ministro Alexandre de Moraes e, segundo fontes do STF, seguiu um roteiro previsível, sem apresentar revelações inéditas ou elementos que alterem o curso da investigação.

Durante pouco mais de duas horas, Bolsonaro procurou se desvincular de qualquer iniciativa golpista. Questionado sobre reuniões com militares e manifestações públicas em que levantou dúvidas sobre a integridade do processo eleitoral, o ex-presidente afirmou que “não havia clima, base ou oportunidade” para qualquer ação de ruptura institucional. Ele negou ter incentivado a adesão de comandantes das Forças Armadas a planos antidemocráticos e classificou suas interações com os militares como “conversas sobre segurança institucional e o sistema eleitoral”.

Integrantes da Corte avaliaram que a estratégia de Bolsonaro foi bem calculada: adotou um tom menos combativo do que o habitual, evitou ataques diretos ao STF e a Moraes, e manteve o foco em argumentos já conhecidos, com o objetivo de não ampliar seu risco jurídico.

Apesar da formalidade do interrogatório, Bolsonaro aproveitou a oportunidade para reforçar narrativas políticas que têm ressonância entre seus apoiadores. O ex-presidente voltou a defender o voto impresso como instrumento de transparência eleitoral, dizendo que sua insistência nesse tema se deu “por respeito à vontade popular”. Ele também minimizou a reunião com militares em julho de 2022, citada pela investigação como um dos principais indícios de articulação golpista, dizendo que foi um encontro técnico com “plaquinhas na frente das pessoas” e nenhuma deliberação efetiva.

Durante o depoimento, Bolsonaro adotou um discurso que mescla vitimização e confronto simbólico com o Judiciário, especialmente com o ministro Alexandre de Moraes. Em momentos pontuais, insinuou que suas falas foram mal interpretadas e que sofre perseguição política por ter questionado o sistema eleitoral.

Com o depoimento de Bolsonaro, o STF encerra a fase de interrogatórios do processo que envolve dezenas de réus investigados por conspiração contra a democracia. A próxima etapa será a apresentação de manifestações das defesas, seguida pelas alegações finais do Ministério Público e das partes envolvidas. O julgamento está previsto para o segundo semestre de 2025, entre os meses de setembro e outubro.

A expectativa é que a decisão do STF tenha grande impacto político, independentemente do resultado. A presença de figuras centrais como os ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino na condução do caso aumenta o peso institucional do julgamento, que deve avaliar não apenas os atos de Bolsonaro, mas o conjunto de movimentações consideradas atentatórias à ordem democrática.

O interrogatório de Jair Bolsonaro repercutiu de forma significativa na imprensa internacional, que destacou a gravidade das acusações e a maneira como o ex-presidente tem lidado com os desdobramentos judiciais. Veículos estrangeiros apontaram que o depoimento de Bolsonaro se assemelhou mais a um ato político do que a uma colaboração com a Justiça, ressaltando sua tentativa de transformar a audiência em palco para reforçar pautas conservadoras.

Analistas ouvidos por jornais estrangeiros também destacaram que, embora Bolsonaro tenha adotado uma postura mais comedida do que em momentos anteriores, sua retórica ainda alimenta a polarização no país e sinaliza que ele pretende se manter como figura central na oposição ao governo atual.

Editor Sucesso