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Dívida dos EUA passa de US$ 40 trilhões

Dívida dos EUA passa de US$ 40 trilhões

A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou pela primeira vez a marca estabelecendo um novo recorde e aumentando a pressão sobre o governo de Donald Trump. O avanço ocorre em meio a déficits elevados, gastos crescentes e um ambiente de juros mais altos, que torna cada vez mais caro para Washington financiar suas próprias obrigações.

De acordo com dados do Departamento do Tesouro americano, a dívida chegou a aproximadamente US$ 40,05 trilhões. Desse total, cerca de US$ 32,3 trilhões correspondem a títulos públicos nas mãos de investidores, enquanto aproximadamente US$ 7,8 trilhões representam obrigações entre órgãos do próprio governo.

O tamanho do endividamento chama atenção principalmente pela velocidade de crescimento. A dívida americana praticamente dobrou desde 2017 e passou de US$ 39 trilhões para US$ 40 trilhões em apenas alguns meses. O movimento mostra que o problema fiscal dos Estados Unidos continua se agravando mesmo diante das promessas de redução de gastos.

Outro fator que preocupa é o resultado das contas públicas. Nos dez primeiros meses do ano fiscal de 2026, encerrados em julho, o governo americano acumulou um déficit de aproximadamente US$ 1,8 trilhão. O valor já supera o rombo registrado em todo o ano fiscal anterior.

Se o ritmo atual continuar, o déficit poderá ultrapassar US$ 2 trilhões até o encerramento do exercício. Na prática, isso significa que o governo continua gastando muito mais do que arrecada, obrigando o Tesouro a buscar novos recursos no mercado por meio da emissão de títulos.

Esse processo cria um desafio adicional porque o aumento da dívida acontece justamente em um período em que os investidores estão exigindo remunerações maiores para comprar títulos de longo prazo do governo americano.

O problema não está apenas no tamanho da dívida, mas também no custo para mantê-la.

Entre outubro de 2025 e julho de 2026, o governo dos Estados Unidos gastou aproximadamente US$ 963 bilhões em juros líquidos, segundo dados do Congressional Budget Office. Isso representa mais de US$ 3 bilhões por dia destinados exclusivamente ao pagamento dos juros da dívida.

Com taxas elevadas, uma parcela cada vez maior do orçamento federal precisa ser direcionada ao serviço da dívida, reduzindo o espaço disponível para outras áreas do governo.

O rendimento dos títulos do Tesouro americano de 30 anos chegou a cerca de 5,33%, o maior nível desde 2007. O título de dez anos também se aproximou de 4,75%. Quanto maiores forem esses rendimentos, maior tende a ser o custo para o governo captar dinheiro e refinanciar suas obrigações.

É justamente essa combinação que preocupa os analistas: uma dívida maior exige mais financiamento e, se os juros permanecerem elevados, o custo desse financiamento também aumenta.

O crescimento da dívida não começou no atual mandato de Trump e não pode ser atribuído exclusivamente a um único governo.

O endividamento americano aumentou de maneira significativa durante a pandemia, quando Washington lançou programas de estímulo econômico para impedir uma recessão ainda mais profunda. Nos anos seguintes, a dívida continuou avançando com despesas relacionadas a programas sociais, infraestrutura, defesa e outras políticas públicas.

O levantamento citado pela VEJA aponta que o endividamento aumentou aproximadamente US$ 11,6 trilhões durante os dois mandatos de Trump e cerca de US$ 8,4 trilhões durante a presidência de Joe Biden. A comparação, entretanto, precisa considerar o impacto extraordinário da pandemia sobre os gastos federais.

O ponto que chama atenção agora é a velocidade do crescimento recente.

O novo recorde também coloca em evidência uma antiga promessa de Donald Trump de reduzir a dívida americana.

Durante sua primeira campanha presidencial, Trump chegou a afirmar que pretendia eliminar a dívida nacional em oito anos. Desde então, porém, o passivo federal praticamente dobrou.

Em seu segundo mandato, o governo voltou a defender medidas para reduzir despesas. Uma das iniciativas foi a criação do Departamento de Eficiência Governamental, que estabeleceu inicialmente uma meta de economizar cerca de US$ 1 trilhão.

Apesar disso, a economia efetivamente alcançada ficou muito abaixo da meta inicialmente anunciada. O Government Accountability Office, órgão responsável pela fiscalização do Congresso, também questionou a transparência e a confiabilidade de parte dos números apresentados pela administração.

Na prática, os cortes não foram suficientes para compensar o crescimento das despesas e do déficit.

Outra estratégia utilizada pelo governo americano foi ampliar a arrecadação por meio de tarifas sobre produtos importados.

A medida, porém, sofreu um revés jurídico após a Suprema Corte considerar ilegais determinadas tarifas baseadas em uma legislação de emergência. Como consequência, o governo ficou obrigado a devolver aproximadamente US$ 166 bilhões a importadores e empresas americanas, além dos juros.

A devolução reduziu uma fonte de receita que a administração esperava utilizar para reforçar suas contas.

Ao mesmo tempo, os cortes de impostos aprovados em 2025 aumentaram o desafio fiscal no curto prazo. A estratégia do governo é que uma carga tributária menor estimule investimentos, produção e crescimento econômico, aumentando posteriormente a arrecadação.

O problema é que a perda de receitas acontece imediatamente, enquanto os possíveis efeitos positivos sobre a economia dependem do comportamento futuro da atividade econômica.

O cenário ficou ainda mais complexo com o aumento dos gastos relacionados à guerra com o Irã.

As despesas militares crescem justamente em um momento no qual Washington tenta controlar o déficit. Além disso, conflitos internacionais podem provocar aumento dos preços de energia e ampliar a incerteza econômica.

Uma economia menos dinâmica também pode dificultar a arrecadação de impostos, tornando mais complicado reduzir o déficit e estabilizar a relação entre a dívida e o Produto Interno Bruto.

Apesar do tamanho impressionante da dívida, os Estados Unidos ainda possuem uma vantagem importante: o dólar continua sendo a principal moeda de reserva internacional, enquanto os títulos do Tesouro americano estão entre os ativos mais importantes e líquidos do sistema financeiro global.

Isso significa que uma dívida de US$ 40 trilhões não representa, por si só, uma situação de insolvência iminente.

O principal risco está na trajetória.

Caso os investidores passem a exigir juros cada vez maiores para financiar o governo americano, o custo da dívida pode aumentar de forma significativa. Isso pode pressionar o orçamento federal e, indiretamente, afetar também empresas, consumidores e famílias, já que taxas mais elevadas costumam encarecer financiamentos e empréstimos.

Por isso, o número de US$ 40 trilhões é importante não apenas pelo valor histórico, mas principalmente pelo sinal que transmite sobre o caminho das contas públicas americanas.

Diante da alta dos rendimentos dos títulos de longo prazo, o Tesouro americano anunciou que pretende ampliar as operações de recompra de títulos a partir de setembro.

A iniciativa tem como objetivo melhorar a liquidez do mercado e reduzir possíveis distorções. Entretanto, ela não significa que a dívida federal será reduzida. O governo continuará emitindo títulos para financiar suas despesas.

O movimento mostra que as autoridades estão atentas ao funcionamento do mercado de Treasuries em um momento de maior preocupação dos investidores com a situação fiscal americana.

Outro desafio está relacionado ao limite legal de endividamento dos Estados Unidos.

O teto atualmente está em aproximadamente US$ 41,1 trilhões, deixando pouco mais de US$ 1 trilhão de margem antes que seja necessária uma nova autorização do Congresso para ampliar o limite.

Isso significa que uma nova disputa política sobre o teto da dívida poderá ocorrer relativamente em breve.

O Congresso americano também terá de lidar com a aprovação do orçamento e com o risco de uma paralisação parcial do governo caso não haja acordo até o fim do atual ano fiscal.

A situação fiscal americana interessa ao mundo inteiro porque os títulos do Tesouro dos Estados Unidos ocupam uma posição central no sistema financeiro internacional.

Se o custo de financiamento do governo americano permanecer elevado, os efeitos podem ultrapassar as fronteiras dos Estados Unidos. Juros americanos mais altos podem influenciar os mercados globais, afetar fluxos de capital e aumentar o custo de financiamento em diferentes economias.

O tamanho da dívida, portanto, deve ser observado em conjunto com o déficit, os juros e a capacidade do governo de controlar suas despesas.

O novo recorde de US$ 40 trilhões representa mais um capítulo de um processo que vem se acumulando há anos. A dívida americana levou décadas para alcançar US$ 20 trilhões, mas precisou de menos de uma década para praticamente dobrar novamente.

O grande desafio de Washington agora será encontrar uma maneira de equilibrar as contas públicas sem comprometer o crescimento econômico. Enquanto o governo continuar gastando acima de sua arrecadação e os juros permanecerem elevados, a tendência é que o custo para sustentar essa dívida continue aumentando.

Ana Carolina