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Emprego resiste, mas economia perde força

Economia perde força, mas mercado de trabalho continua aquecido

A economia brasileira começou a apresentar sinais mais claros de desaceleração no segundo trimestre de 2026, mas o mercado de trabalho continua demonstrando força. Essa combinação chama a atenção de economistas porque, enquanto a atividade econômica perde ritmo, o baixo desemprego e o crescimento da renda mantêm o consumo das famílias e podem dificultar uma queda mais rápida da inflação.

Entre abril e junho, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 0,5%, resultado inferior aos 1,1% registrados nos três primeiros meses do ano. A diferença mostra que o ritmo de expansão diminuiu de maneira significativa ao longo do primeiro semestre. Ao mesmo tempo, os dados do mercado de trabalho continuaram positivos, criando um cenário em que os indicadores econômicos não apontam todos na mesma direção.

A taxa de desemprego chegou a 5,3% no trimestre encerrado em agosto, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O índice permaneceu em um nível historicamente baixo, enquanto o rendimento médio real habitual dos trabalhadores alcançou R$ 3.777 no mesmo período. Com mais pessoas trabalhando e a renda mantendo crescimento real, a demanda por produtos e serviços continua encontrando sustentação.

Esse comportamento do mercado de trabalho pode ajudar a explicar por que uma desaceleração do PIB não necessariamente produz uma redução imediata das pressões inflacionárias. Quando emprego e renda permanecem fortes, as famílias continuam consumindo e setores ligados aos serviços podem manter preços mais elevados.

Outro aspecto importante é que o mercado de trabalho costuma reagir com algum atraso às mudanças na atividade econômica. Antes de reduzir postos de trabalho, muitas empresas podem diminuir o ritmo das contratações, cortar horas extras, adiar investimentos ou buscar alternativas para aumentar a produtividade. Dessa maneira, uma economia que começa a perder velocidade pode continuar apresentando baixo desemprego durante algum tempo.

Essa defasagem é um dos pontos observados pelos economistas. A avaliação apresentada na reportagem é que a desaceleração pode aparecer inicialmente na abertura de novas vagas e no crescimento da renda antes de provocar um aumento mais significativo da taxa de desemprego.

O comportamento dos salários também merece atenção. Segundo os dados apresentados pela Veja, a renda real continua avançando e o crescimento estaria acima do ritmo de produtividade. Quando os salários aumentam mais rapidamente do que a produção por trabalhador, empresas podem enfrentar uma elevação dos custos, especialmente em atividades que dependem intensamente de mão de obra. Parte desse aumento pode acabar sendo repassada aos preços.

O efeito é particularmente relevante no setor de serviços, onde os custos com trabalhadores possuem peso importante na formação dos preços. Mesmo com uma economia crescendo menos, um mercado de trabalho aquecido pode manter a inflação de serviços pressionada por mais tempo.

Esse quadro também é acompanhado de perto pelo Banco Central, que vem conduzindo uma política monetária restritiva para combater a inflação. Em setembro, a taxa básica de juros, a Selic, foi reduzida para 13,75% ao ano, depois de dois cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual. A autoridade monetária, entretanto, mantém uma postura de cautela diante das incertezas sobre a trajetória da inflação.

Na avaliação do Comitê de Política Monetária (Copom), os indicadores apontam para uma moderação gradual da atividade econômica, principalmente nos setores mais sensíveis ao ciclo econômico. Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho continua sendo classificado como aquecido, o que cria um cenário de equilíbrio delicado para a condução dos juros.

Na prática, uma economia mais fraca tende a reduzir a pressão sobre os preços, porque consumidores e empresas podem diminuir o ritmo dos gastos e dos investimentos. Porém, se o emprego e a renda permanecerem fortes, parte dessa pressão pode continuar presente, principalmente em serviços.

Por isso, a desaceleração do PIB não significa automaticamente que haverá espaço para cortes rápidos ou intensos na taxa de juros. O Banco Central precisa observar se a perda de ritmo da atividade também chegará ao mercado de trabalho e se haverá uma redução das pressões relacionadas aos salários e aos serviços.

Outro indicador importante nesse cenário é a inflação projetada pela autoridade monetária. No Relatório de Política Monetária de setembro, o Banco Central projetou IPCA de 5,2% para 2026 e de 3,9% para 2027 no cenário de referência. Esses números ajudam a explicar a cautela adotada na condução da política monetária.

O cenário, portanto, apresenta dois movimentos simultâneos. De um lado, a economia começa a demonstrar perda de velocidade, com crescimento do PIB menor no segundo trimestre. De outro, o mercado de trabalho permanece resistente, com desemprego baixo e renda em crescimento.

Essa combinação pode permanecer durante algum tempo porque os efeitos de uma política monetária mais restritiva não chegam imediatamente a todos os setores da economia. Os juros elevados tendem a afetar primeiro atividades mais dependentes de crédito e setores mais sensíveis ao custo de financiamento. Os impactos sobre contratação, renda e emprego podem aparecer posteriormente.

Para as empresas, uma eventual desaceleração do mercado de trabalho pode começar de maneira menos visível. Em vez de demissões imediatas, pode ocorrer uma redução no número de vagas abertas, menor utilização de horas extras, adiamento de novas contratações e aumento dos investimentos em automação e produtividade.

Isso significa que acompanhar apenas a taxa de desemprego pode não ser suficiente para entender completamente o comportamento da economia. Outros indicadores, como criação de vagas, rendimento dos trabalhadores, produtividade e nível de consumo, também ajudam a identificar mudanças no ritmo da atividade.

O mercado de trabalho ainda apresenta baixa ociosidade, e isso representa uma diferença importante em relação a outros períodos de desaceleração econômica. A quantidade de pessoas sem emprego continua relativamente pequena, enquanto as empresas ainda encontram demanda por trabalhadores em diversas áreas.

Ao mesmo tempo, o crescimento mais lento do PIB mostra que a economia já não apresenta o mesmo ritmo observado no início do ano. O resultado de 0,5% no segundo trimestre representa menos da metade da expansão registrada entre janeiro e março.

A principal questão para os próximos meses será justamente saber como esses dois movimentos irão evoluir. Caso a desaceleração da atividade avance e comece a atingir contratações e renda, as pressões sobre a inflação poderão diminuir. Se o emprego e os salários continuarem fortes, entretanto, a demanda poderá permanecer sustentada e dificultar uma convergência mais rápida da inflação.

O cenário também será importante para as decisões futuras do Banco Central. A autoridade terá de acompanhar simultaneamente o comportamento da atividade econômica, do mercado de trabalho, dos salários, dos serviços e das expectativas de inflação antes de definir os próximos passos da política monetária.

Para a população, os efeitos dessa combinação podem ser percebidos de diferentes maneiras. Um mercado de trabalho aquecido favorece a manutenção dos empregos e da renda, enquanto uma atividade econômica mais fraca pode representar menor ritmo de investimentos e contratação no futuro. Já para empresas e consumidores, a trajetória dos juros continua sendo um fator importante para decisões envolvendo crédito, consumo e investimentos.

Assim, os números mais recentes mostram uma economia em uma espécie de transição. O mercado de trabalho ainda apresenta indicadores robustos, mas o crescimento econômico perdeu força. A diferença entre esses dois movimentos será fundamental para determinar como a economia brasileira irá se comportar nos próximos meses e qual será o espaço para novas mudanças na política de juros.

Por enquanto, os dados indicam que o enfraquecimento da atividade ainda não se transformou em uma deterioração significativa do mercado de trabalho. A economia perdeu velocidade, mas emprego e renda continuam funcionando como importantes pontos de sustentação da demanda.

Ana Carolina