Francisco Cuoco, um dos mais consagrados e carismáticos nomes da história da televisão brasileira, faleceu nesta quinta-feira (19), aos 91 anos, em São Paulo. O ator estava internado havia cerca de 20 dias no Hospital Albert Einstein e vinha enfrentando problemas de saúde agravados por infecções e complicações decorrentes da idade. A notícia foi confirmada por familiares.
Conhecido por sua voz grave, olhar intenso e presença magnética, Cuoco construiu uma carreira sólida e respeitada ao longo de mais de seis décadas. Seus personagens — frequentemente homens fortes, galantes e marcados por um charme discreto — se tornaram parte do imaginário popular do país, especialmente nas novelas produzidas pela TV Globo entre as décadas de 1970 e 1990.
Origem humilde e paixão pela arte
Francisco Cuoco nasceu em 1933 no bairro do Brás, na capital paulista, região de forte presença de imigrantes italianos. Criado em uma família humilde, começou a trabalhar desde cedo, ajudando o pai como feirante. Ainda jovem, desenvolveu o interesse pelo teatro, o que o levou a ingressar na Escola de Arte Dramática, atualmente vinculada à Universidade de São Paulo (USP).
A estreia nos palcos aconteceu em 1958, ao lado de Fernanda Montenegro e Sérgio Britto, na peça A Muito Curiosa História da Virtuosa Matrona de Éfeso. Apesar de não ter falas, seu talento e presença logo chamaram atenção. Em 1959, participou da fundação do Teatro dos Sete, grupo que contava com figuras importantes da cena teatral brasileira como Gianni Ratto, Ítalo Rossi e o próprio Britto.
A ascensão na televisão
Nos anos 1960, Cuoco começou a atuar em teleteatros da TV Tupi, mas foi em 1964 que ganhou destaque ao protagonizar sua primeira novela, Marcados pelo Amor, escrita por Walther Negrão e Roberto Freire para a TV Record. Dois anos depois, veio o grande sucesso: Redenção, novela da TV Excelsior que conquistou o público e colocou o nome de Cuoco entre os principais galãs da época.
A consagração definitiva viria com a chegada à TV Globo, onde atuou em títulos que se tornaram clássicos da teledramaturgia brasileira. Em 1972, viveu o protagonista de Selva de Pedra, ao lado de Regina Duarte, com quem formou um dos pares românticos mais icônicos da televisão. A trama bateu recordes de audiência e consolidou Cuoco como um dos rostos mais populares do país.
Papéis marcantes e versatilidade
Entre os papéis mais memoráveis de Cuoco estão Carlão, o taxista honesto e apaixonado de Pecado Capital (1975), e Herculano Quintanilha, o vidente charlatão de O Astro (1977), de Janete Clair — personagem que retornaria em uma versão repaginada da novela em 2011, quando Cuoco apareceu em um papel coadjuvante, prestando homenagem à própria trajetória.
Outro momento marcante de sua carreira foi em O Outro (1987), de Aguinaldo Silva, onde interpretou dois personagens simultaneamente: o empresário Paulo Della Santa e seu sósia, Denizard de Mattos. O enredo, com forte carga de suspense, exigiu de Cuoco uma performance técnica e emocional admirável.
Apesar de se tornar símbolo da televisão, Cuoco jamais abandonou totalmente os palcos. Após um hiato nos anos 1990, voltou ao teatro em 2004 com a comédia Três Homens Baixos, e posteriormente participou de montagens como Circuncisão em Nova York (2008), Deus é Química (2009) e Uma Vida no Teatro (2013), nesta última ao lado de grandes nomes da cena nacional.
Cinema, música e espiritualidade
Embora sua carreira cinematográfica tenha sido menos extensa, Cuoco também brilhou nas telonas. Atuou em filmes como Traição (1998), Gêmeas (1999), Um Anjo Trapalhão (2000) e Cafundó (2005), com destaque para personagens que exploravam sua maturidade artística e sua versatilidade.
Na década de 1970, aventurou-se na música com o álbum Solead (1975), onde explorava seu lado romântico como cantor. Mais tarde, lançou Paz Interior, um trabalho voltado à espiritualidade, que reunia 16 orações católicas interpretadas por ele.
Legado e despedida
Francisco Cuoco deixa três filhos: Rodrigo, Diogo e Tatiana. Esta última, residente em Londres, veio ao Brasil para visitar o pai no hospital, mas ele já se encontrava inconsciente. A despedida marca o fim de uma era para a dramaturgia brasileira, mas o legado do ator permanece vivo na memória afetiva de milhões de espectadores.
Com uma carreira marcada por personagens memoráveis, talento, sensibilidade e uma presença incomparável, Cuoco entra para a história como um dos grandes nomes da arte nacional. Seu trabalho atravessou gerações e moldou o padrão do galã na televisão brasileira, mas também foi além, revelando um artista comprometido com o ofício, a emoção e a arte de contar histórias.






