O império digital de Mark Zuckerberg enfrenta o maior desafio jurídico de sua história. A Meta, controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp, está no centro de um julgamento nos Estados Unidos que poderá redefinir o futuro da empresa — e da internet como a conhecemos.
O processo, iniciado pelo governo norte-americano por meio da Comissão Federal de Comércio, acusa a Meta de práticas monopolistas ao adquirir Instagram e WhatsApp. O argumento central da FTC é que essas aquisições não ocorreram por inovação ou expansão natural de mercado, mas sim como estratégia deliberada para neutralizar concorrência.
Segundo as autoridades, as compras foram motivadas pelo medo de competição. Documentos internos da empresa apresentados ao tribunal mostram que Zuckerberg via o Instagram como um potencial “concorrente existencial”, e teria agido rapidamente para comprá-lo antes que se tornasse uma ameaça real à dominância do Facebook.
O mesmo raciocínio teria guiado a aquisição do WhatsApp. Com sua crescente base de usuários e foco em mensagens privadas, o app se tornava um risco à hegemonia da rede social. Ao comprá-lo por US$ 19 bilhões, Zuckerberg teria consolidado um domínio que, segundo a acusação, prejudicou consumidores e sufocou a inovação.
Caso a Meta seja considerada culpada, poderá ser obrigada a desfazer as aquisições — algo sem precedentes na era digital. Isso significaria, na prática, a separação estrutural da empresa: Instagram e WhatsApp deixariam de ser controladas por Menlo Park.
A decisão poderia abrir caminho para uma nova era de regulação no Vale do Silício, com consequências para outras gigantes como Google, Amazon e Apple. “Este julgamento não é só sobre a Meta, mas sobre o modelo de negócios das Big Techs”, afirmou Carlos Affonso de Souza, professor e especialista em direito digital.
A empresa sustenta que suas aquisições foram aprovadas na época pelos reguladores e que os produtos só melhoraram sob seu comando. Zuckerberg, que já depôs duas vezes durante o julgamento, afirmou que o Instagram era “pequeno e irrelevante” na época da compra, e que o WhatsApp não tinha um modelo de negócios consolidado.
Durante seu depoimento, Zuckerberg também disse que o Facebook “não é mais sobre fazer amigos”, destacando a transição da empresa para um foco em comunidades, entretenimento e realidade virtual — com grandes apostas no metaverso.
A Meta também argumenta que a competição no setor continua intensa, com rivais como TikTok, Snapchat e Telegram crescendo em usuários e influência. No entanto, os promotores insistem que isso não muda o fato de que as aquisições passadas minaram o ecossistema competitivo da internet.
O caso também tem dimensões políticas. Reportagens recentes apontam que a Meta intensificou seu lobby em Washington, inclusive tentando influenciar políticos republicanos próximos ao ex-presidente Donald Trump. Há dúvidas sobre como a atual composição da Suprema Corte, com maioria conservadora, reagirá a um possível recurso no futuro.
O julgamento ainda está em fase inicial, com semanas de depoimentos e análises pela frente. Especialistas afirmam que o caso pode durar meses e que, qualquer que seja o desfecho, ele será emblemático para a regulação das plataformas digitais.
O veredito, porém, não terá impacto apenas nos tribunais. Consumidores, criadores de conteúdo, startups e concorrentes da Meta aguardam com atenção. Uma decisão favorável à FTC poderá abrir espaço para novos atores no mercado digital, enquanto uma vitória da Meta reforçaria a posição das grandes plataformas.
Independentemente do resultado, o julgamento de Zuckerberg e da Meta marca um divisor de águas na história da tecnologia e da regulação econômica global.





