Carregando cotação do dólar...

PF investiga emendas ligadas a filme de Bolsonaro

PF INVESTIGA EMENDAS LIGADAS A FILME DE BOLSONARO

A Polícia Federal deflagrou uma operação para investigar um suposto esquema de desvio e direcionamento de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares que, segundo os investigadores, teria beneficiado empresas e organizações ligadas à produção do filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

A investigação ganhou novos contornos após o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), tornar pública parte da decisão que autorizou a operação. De acordo com os elementos apresentados pela Polícia Federal, recursos destinados originalmente a projetos de interesse público teriam sido movimentados por diferentes entidades e empresas até chegar a estruturas relacionadas à produtora do filme.

A operação, batizada de “Make Up”, cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em endereços localizados em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Entre os alvos estão a produtora Karina Gama e o deputado federal Mario Frias (PL-SP), que também aparece como produtor executivo de “Dark Horse”.

Segundo a investigação, uma das linhas analisadas envolve o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC), entidades ligadas a Karina Gama. A suspeita é de que organizações como essas tenham recebido recursos públicos por meio de emendas parlamentares e posteriormente contratado empresas que fariam parte de uma rede investigada pela PF.

Os investigadores trabalham com a hipótese de que o sistema teria sido utilizado para dificultar a identificação da origem dos recursos. Na avaliação da PF, diferentes empresas e organizações poderiam funcionar de maneira integrada, permitindo que o dinheiro circulasse entre elas antes de chegar à produtora responsável pelo filme.

Um dos principais pontos da apuração envolve emendas destinadas pelo deputado Mario Frias. Segundo informações apresentadas na investigação, duas emendas de autoria do parlamentar teriam destinado aproximadamente R$ 2 milhões ao Instituto Conhecer Brasil. A partir daí, parte dos recursos teria sido transferida para outras empresas e prestadores de serviços.

A Polícia Federal também identificou uma coincidência entre o período de movimentações financeiras da produtora Go Up Entertainment e as datas de produção do filme. Os investigadores analisaram operações realizadas entre novembro e dezembro de 2025, período que coincide parcialmente com as gravações da obra em São Paulo.

Durante esse intervalo, a conta da produtora teria registrado movimentações de aproximadamente R$ 19 milhões, considerando créditos e débitos. A PF passou a analisar a origem desses recursos e a relação entre os pagamentos recebidos pela empresa e as despesas realizadas durante o período de produção do longa-metragem.

Entre os gastos identificados aparecem despesas relacionadas a hospedagem, alimentação e serviços de empresas do setor audiovisual. A investigação chamou atenção, por exemplo, para pagamentos realizados a um hotel de alto padrão e para empresas responsáveis por alimentação e produção.

Outro ponto analisado pelos investigadores é uma transferência de R$ 750 mil feita por uma empresa ligada a integrantes da estrutura investigada para a Go Up Entertainment. Segundo os dados apresentados na apuração, o valor seria próximo ao montante de R$ 700 mil que havia sido recebido anteriormente por uma entidade por meio de emendas parlamentares.

A investigação também aponta que o próprio Mario Frias teria feito uma transferência de R$ 645 mil diretamente para a produtora. Além disso, a Go Up teria recebido valores de outras empresas e instituições, compondo uma movimentação financeira que passou a ser analisada pelas autoridades.

Para a Polícia Federal, essas movimentações podem indicar a existência de um circuito financeiro destinado a dificultar o rastreamento da origem dos recursos. Os investigadores passaram a verificar se valores públicos destinados a projetos específicos teriam sido desviados de suas finalidades originais e posteriormente utilizados, direta ou indiretamente, para despesas relacionadas à produção do filme.

A operação não envolve apenas a produção cinematográfica. A apuração busca identificar uma possível estrutura mais ampla, formada por empresas, organizações e pessoas que teriam mantido relações financeiras entre si. Segundo a PF, levantamentos financeiros encontraram movimentações de centenas de milhões de reais entre empresas que fazem parte do conjunto investigado.

Os investigadores apuram suspeitas de crimes como peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e irregularidades relacionadas a licitações e contratos. As suspeitas ainda estão sendo investigadas e deverão ser confrontadas com documentos, registros financeiros e outros elementos apreendidos durante a operação.

A investigação também analisa possíveis irregularidades na contratação de empresas por entidades que receberam recursos públicos. Entre os indícios levantados estão possíveis vínculos entre empresas contratadas e pessoas próximas aos envolvidos, além de questionamentos sobre a capacidade de algumas empresas para executar os serviços para os quais teriam sido contratadas.

Em um dos casos citados na investigação, empresas que receberam recursos teriam apresentado vínculos societários ou relações com pessoas que também tiveram ligação política com Mario Frias. A PF também identificou situações que levantaram suspeitas sobre a existência física de determinadas empresas, datas de contratos e efetiva prestação dos serviços.

A Academia Nacional de Cultura também entrou no radar dos investigadores. A entidade teria recebido recursos provenientes de emendas de outros parlamentares, e a investigação passou a analisar a destinação desses valores e a compatibilidade entre os projetos apresentados e a efetiva aplicação do dinheiro.

A questão envolvendo o filme “Dark Horse” é acompanhada ainda em outra investigação no Supremo Tribunal Federal. Esse segundo inquérito apura recursos que teriam sido destinados à produção do longa pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, em um caso que envolve o senador Flávio Bolsonaro.

Com isso, o financiamento do filme passou a ser analisado por diferentes frentes de investigação. Enquanto uma apuração se concentra principalmente na possível utilização irregular de emendas parlamentares e recursos públicos, outra examina os repasses privados relacionados à produção.

A operação autorizada por Flávio Dino não determinou prisões, mas estabeleceu medidas cautelares para alguns investigados. Os alvos tiveram materiais e documentos apreendidos para auxiliar na reconstrução das movimentações financeiras e na identificação de possíveis responsabilidades.

A Polícia Federal agora deverá analisar o material recolhido durante as buscas, além de aprofundar a investigação sobre as empresas e pessoas envolvidas. A expectativa é que a análise dos documentos e dados financeiros possa esclarecer se houve efetivamente desvio de recursos públicos e qual teria sido o destino final dos valores.

É importante ressaltar que as pessoas investigadas não são consideradas culpadas apenas em razão dos mandados de busca e apreensão ou das suspeitas apresentadas pela Polícia Federal. As acusações ainda dependem do avanço das investigações, da análise das provas e, eventualmente, de decisões judiciais.

O caso ganhou grande repercussão por envolver recursos públicos, emendas parlamentares, integrantes do meio político e a produção de uma obra cinematográfica sobre um ex-presidente da República. A investigação deverá continuar nos próximos meses e poderá trazer novos detalhes sobre a origem e o destino dos valores movimentados pelas empresas e organizações citadas no inquérito.

Ana Carolina