O anúncio de que a presidente do Peru, Dina Boluarte, terá seu salário dobrado causou forte repercussão no país. A decisão, oficializada nesta quarta-feira (2), prevê um aumento para 35.568 sóis mensais, o que corresponde a aproximadamente US$ 10 mil (cerca de R$ 55 mil), valor consideravelmente superior ao atual salário de 15.600 sóis (cerca de US$ 4.400). O reajuste será implementado de forma imediata e já foi aprovado pelo Conselho de Ministros.
A justificativa apresentada pelo governo é que, em comparação com os presidentes de outras nações latino-americanas, Boluarte ocupava uma das últimas posições em termos de remuneração. Segundo a nota oficial, ela estava à frente apenas do presidente da Bolívia. Embora o governo alegue que o novo valor busca equilibrar a remuneração da presidência com a média da região, a medida provocou indignação generalizada entre os peruanos.
Críticas da população e oposição no Congresso
Nas ruas de Lima e em outras partes do país, a reação foi imediata. Muitos cidadãos consideraram o reajuste desrespeitoso diante da atual realidade econômica do Peru, onde quase 30% da população vive em situação de pobreza. O país ainda sente os impactos da pandemia de COVID-19 e de uma grave instabilidade política que resultou em protestos violentos e uma recessão econômica nos últimos anos.
“É um absurdo completo. Enquanto crianças passam fome e hospitais carecem de recursos, a presidente aumenta seu salário? Isso é um tapa na cara do povo”, declarou Carmen Juárez, moradora da capital.
Parlamentares da oposição também se posicionaram contra a medida. O deputado Jaime Quito anunciou que pretende apresentar um projeto no Congresso para anular o aumento, argumentando que não há justificativa ética ou econômica para tal decisão neste momento do governo.
Histórico salarial e comparações regionais
O último reajuste presidencial no Peru havia sido realizado em 2006, durante o governo de Alan García, que reduziu o salário de 42.000 sóis para os atuais 15.600. Desde então, o valor permaneceu congelado, mesmo com as mudanças nos governos e nas condições econômicas do país.
Apesar de o governo alegar que o salário de Boluarte era um dos mais baixos entre os presidentes latino-americanos, não há dados oficiais recentes que sustentem essa comparação. Uma análise independente publicada anteriormente pelo Rio Times apontou que os vencimentos dos presidentes na América Latina variam entre US$ 3.000 e US$ 22.000, com uma média de aproximadamente US$ 9.600, o que colocaria o novo salário da presidente peruana dentro da média regional.
Mandato turbulento e baixa popularidade
Dina Boluarte assumiu o cargo em dezembro de 2022, após a destituição do então presidente Pedro Castillo, que tentou dissolver o Congresso e acabou preso. Desde então, Boluarte enfrenta uma série de desafios, incluindo múltiplos protestos, uma aprovação pública em queda — que atualmente oscila entre 2% e 4%, segundo pesquisas das agências Datum e Ipsos — e acusações de corrupção e abuso de poder.
Entre as investigações em curso contra a presidente está um processo por possível enriquecimento ilícito envolvendo a posse de relógios de luxo da marca Rolex. Além disso, Boluarte foi alvo de críticas severas por sua atuação durante os protestos que marcaram o início de sua gestão, os quais resultaram em mais de 50 mortes, segundo organizações de direitos humanos.
Apesar dos diversos pedidos de impeachment já apresentados contra ela, Boluarte tem se mantido no cargo graças ao apoio de partidos conservadores no Congresso. Desde 2018, o Peru já teve seis presidentes, três dos quais estão atualmente presos por envolvimento em escândalos de corrupção.
Cenário político e futuro do governo
A presidente deve permanecer no poder até julho de 2026, com eleições presidenciais programadas para abril do mesmo ano. A oposição, no entanto, promete intensificar a pressão para reverter o aumento salarial e investigar as ações do atual governo.
A decisão de reajustar os salários de altos cargos do Executivo em um momento de fragilidade econômica e descrédito político representa mais um capítulo da crise institucional que o país enfrenta. Para muitos analistas, o aumento reforça o abismo entre a elite política e a realidade da população, aprofundando a desconfiança da sociedade nas instituições democráticas do país.





