O Partido dos Trabalhadores (PT) protocolou uma representação no Conselho de Ética do Senado contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que também é candidato à Presidência da República. A iniciativa ocorre em meio à repercussão das informações relacionadas ao financiamento do filme “Dark Horse”, produção que aborda a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, e à relação do parlamentar com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.
Segundo as informações divulgadas pela CNN Brasil, o PT sustenta que existem contradições entre declarações públicas feitas por Flávio Bolsonaro e informações que vieram a público sobre os repasses destinados ao filme. A representação foi apresentada ao colegiado do Senado e aponta que os fatos merecem ser analisados sob a ótica do decoro parlamentar.
O documento apresentado pelo partido é assinado pelo presidente nacional do PT, Edinho Silva. A legenda argumenta que o Conselho de Ética deve avaliar a conduta de parlamentares quando houver questionamentos relacionados à integridade, à dignidade e à responsabilidade no exercício do mandato.
A iniciativa não se limita, segundo o PT, a uma tentativa de discutir eventual responsabilidade criminal. O partido afirma que qualquer investigação ou julgamento sobre possíveis crimes deve seguir os procedimentos próprios das autoridades competentes e do Poder Judiciário. A representação, de acordo com a legenda, concentra-se na conduta atribuída ao senador e nas supostas divergências entre suas declarações e informações documentadas.
Um dos principais pontos citados está relacionado aos valores destinados ao financiamento de “Dark Horse”. A CNN informou que relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificaram um pagamento de US$ 1,6 milhão, realizado em setembro de 2025. O valor, na cotação mencionada na representação do PT, corresponde a mais de R$ 8 milhões.
A informação ganhou relevância porque Flávio Bolsonaro havia afirmado anteriormente que o último pagamento de Daniel Vorcaro relacionado ao filme teria ocorrido em maio de 2025. A descoberta de um novo repasse, portanto, passou a ser utilizada pelo PT como um dos argumentos para questionar as explicações apresentadas pelo senador.
O caso também ganhou repercussão após a divulgação de um áudio no qual Flávio Bolsonaro aparece pedindo dinheiro a Vorcaro. De acordo com a representação do partido, o senador inicialmente negou a situação e, posteriormente, passou a classificar a operação como uma negociação de financiamento privado.
Para o PT, a dimensão dos valores envolvidos, a relação entre o financiador e o projeto cinematográfico e o caráter político atribuído à produção justificariam uma análise do comportamento do parlamentar pelo Senado.
Outro ponto levantado na representação é a proximidade entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. O partido afirma que as relações entre os dois teriam continuado mesmo depois de as suspeitas envolvendo a administração do Banco Master já terem se tornado públicas.
A representação também menciona um encontro entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro em um momento posterior, quando o banqueiro já estava sob medidas judiciais e utilizando tornozeleira eletrônica. Para o PT, esse episódio reforçaria a necessidade de esclarecimentos sobre a natureza da relação mantida entre os dois.
A legenda também questiona a falta de divulgação de documentos considerados importantes para esclarecer o financiamento do filme. Entre eles estão o contrato de financiamento, informações completas sobre investidores e detalhes sobre a destinação dos recursos envolvidos na produção.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, já afirmou publicamente que as questões relacionadas ao financiamento do filme estariam esclarecidas. Em entrevista ao Jornal Nacional, segundo o material divulgado pelo PT, o senador chegou a tratar o assunto como algo já encerrado e afirmou que todas as informações relevantes haviam vindo a público.
O PT discorda dessa avaliação e entende que ainda existem pontos que precisam ser esclarecidos. Por isso, a legenda pede que o Conselho de Ética examine o caso e avalie se houve quebra de decoro parlamentar.
O pedido ocorre em um momento de forte disputa política, especialmente porque Flávio Bolsonaro é pré-candidato à Presidência e tem ampliado sua atuação no cenário eleitoral. O caso envolvendo “Dark Horse” passou a ocupar espaço importante no debate político e vem sendo utilizado pelos adversários do senador para questionar sua conduta e suas explicações.
Apesar da repercussão, existe também uma questão institucional importante: o próprio funcionamento do Conselho de Ética do Senado. Segundo a CNN Brasil, o colegiado não realiza deliberações desde julho de 2024. Embora apareça oficialmente como “em funcionamento” no sistema do Senado, não havia previsão de reunião do conselho para 2026 no momento da publicação da reportagem. Nos últimos sete anos, o órgão teria realizado apenas cinco reuniões.
Esse cenário pode influenciar diretamente os próximos passos da representação. Para que o pedido avance, será necessário que o Conselho de Ética seja efetivamente acionado dentro dos procedimentos regimentais e que os senadores responsáveis pela análise avaliem os argumentos apresentados.
O PT, entretanto, defende que o caso não seja ignorado e compara a situação a episódios anteriores em que parlamentares perderam o mandato após processos relacionados à quebra de decoro. A representação cita como precedentes os casos dos ex-senadores Luiz Estêvão e Demóstenes Torres.
A discussão, portanto, deverá ultrapassar a questão eleitoral e colocar novamente em evidência o papel do Conselho de Ética do Senado na fiscalização da conduta dos parlamentares.
Por enquanto, a representação apresentada pelo PT representa um pedido de investigação e análise política dentro do Senado. Não significa, por si só, uma decisão de cassação ou uma condenação contra Flávio Bolsonaro. Caberá às instâncias competentes avaliar os fatos, os documentos e as justificativas apresentadas pelas partes.
O episódio mostra como o caso “Dark Horse” continua produzindo desdobramentos políticos e institucionais. As informações sobre os pagamentos, a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro e as diferentes versões apresentadas sobre o financiamento do filme deverão permanecer no centro do debate enquanto novas apurações e esclarecimentos forem realizados.
A representação do PT coloca mais pressão sobre o senador e acrescenta uma nova frente de disputa em um cenário político já marcado por forte polarização. Agora, a atenção se volta para o Senado e para a possibilidade de o Conselho de Ética analisar ou não o pedido apresentado pelo partido.





