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Tarifaço dos EUA já reduz vendas de empresas brasileiras

Tarifaço dos EUA já reduz vendas de empresas brasileiras

As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros já começam a provocar impactos concretos nas empresas que dependem do mercado norte-americano. A medida tem reduzido as vendas de companhias brasileiras e aumentado a preocupação entre empresários, especialmente aqueles que possuem uma parcela significativa do faturamento vinculada aos consumidores e compradores dos Estados Unidos.

Segundo informações divulgadas pelo g1, algumas empresas brasileiras já registram quedas expressivas nas vendas destinadas ao mercado americano. Em determinados casos, os negócios praticamente desapareceram, mostrando como as mudanças nas regras comerciais podem afetar rapidamente empresas que construíram durante anos relações comerciais com clientes estrangeiros.

Um dos exemplos apresentados é o da Engemasa, empresa do setor de manufatura. Em 2025, aproximadamente 40% do faturamento da companhia vinha do mercado norte-americano. Em 2026, entretanto, essa participação chegou praticamente a zero. A mudança representa um impacto significativo para uma empresa que tinha nos Estados Unidos uma importante fonte de receitas.

Outra companhia citada na reportagem é a Utilinox, que atua na fabricação de máquinas e equipamentos para o setor industrial. A empresa também sofreu com a redução das compras americanas, registrando queda de aproximadamente 60% nas vendas de determinados produtos destinados aos Estados Unidos.

O cenário demonstra que o aumento das tarifas não afeta apenas os preços dos produtos que chegam ao consumidor americano. As consequências também aparecem na produção, no faturamento, nos investimentos e no planejamento das empresas brasileiras que dependem das exportações.

Os Estados Unidos são um dos principais parceiros comerciais do Brasil, o que torna a substituição desse mercado uma tarefa complexa. Dados citados na reportagem mostram que as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 9,7% entre janeiro e agosto de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior. O valor exportado nesse intervalo foi de US$ 24,1 bilhões, o menor registrado para o período desde 2023.

A redução atingiu diferentes segmentos da economia brasileira, incluindo setores da indústria de transformação, da atividade extrativa e do agronegócio. Apesar da queda, os Estados Unidos continuam sendo um destino importante para os produtos brasileiros, o que explica a preocupação das empresas com os efeitos prolongados das tarifas.

Para muitas companhias, encontrar compradores em outros países não é uma tarefa simples. A mudança exige pesquisas, investimentos, adaptação dos produtos, negociação com novos parceiros e conhecimento das regras comerciais de cada mercado. Além disso, existem diferenças de logística, tributação, padrões de consumo e concorrência que precisam ser consideradas antes de uma empresa conseguir estabelecer uma nova operação internacional.

O desafio pode ser ainda maior para as pequenas e médias empresas. De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços citados na reportagem, cerca de 40% das empresas brasileiras que exportam para os Estados Unidos são de pequeno porte.

Embora essas empresas representem uma parcela menor do valor total exportado, elas possuem importância para a economia e para a geração de empregos. Muitas delas também possuem estruturas mais enxutas e menos capacidade financeira para absorver rapidamente uma queda nas vendas ou realizar grandes investimentos em novos mercados.

Outro fator que dificulta a substituição dos Estados Unidos é que alguns produtos brasileiros são desenvolvidos especificamente para atender às necessidades do consumidor americano. Quando uma empresa decide buscar compradores em outros países, pode ser necessário modificar características do produto, embalagem, estratégia comercial e até mesmo os canais de distribuição.

A diversificação dos mercados, portanto, passa a ser uma alternativa cada vez mais importante para os exportadores brasileiros. Países da Europa, da América Latina, do Caribe e de outras regiões podem representar novas oportunidades, dependendo do produto e do setor de atuação de cada companhia.

Entretanto, conquistar esses mercados leva tempo. As empresas precisam identificar potenciais compradores, entender a demanda local, analisar os custos de transporte, cumprir exigências regulatórias e enfrentar concorrentes que já estão estabelecidos nesses países.

Enquanto as empresas procuram alternativas, o governo brasileiro também possui mecanismos destinados a auxiliar os exportadores afetados pelas mudanças no comércio internacional. Entre as medidas está o Seguro de Crédito à Exportação, que busca oferecer proteção para determinadas operações de comércio exterior.

Outro instrumento é o Programa de Financiamento às Exportações, conhecido como Proex, que oferece mecanismos de financiamento para apoiar empresas brasileiras nas operações internacionais. Para 2026, foram destinados recursos de R$ 2,2 bilhões ao Proex Financiamento e R$ 1,28 bilhão ao Proex Equalização.

Também houve a prorrogação, por um ano, dos prazos relacionados ao drawback para empresas afetadas pelas tarifas. Esse regime permite a suspensão, isenção ou restituição de determinados tributos relacionados à aquisição de insumos utilizados na fabricação de produtos destinados à exportação.

As medidas podem ajudar as empresas a enfrentar o período de dificuldades, mas não eliminam o principal desafio: encontrar novos compradores e reduzir a dependência de um único mercado.

Ao mesmo tempo, Brasil e Estados Unidos retomaram as discussões sobre a relação comercial entre os dois países. Em 30 de setembro de 2026, durante uma reunião de ministros do Comércio do G20, foi anunciada a criação de um grupo de trabalho destinado a discutir questões relacionadas ao comércio bilateral.

O grupo deverá tratar de temas tarifários e não tarifários. O governo brasileiro afirma que busca uma redução abrangente das tarifas aplicadas aos produtos nacionais. A criação do grupo representa a retomada do diálogo entre os dois países, mas não significa que as tarifas tenham sido automaticamente retiradas ou que os problemas enfrentados pelas empresas tenham sido solucionados.

Enquanto as negociações continuam, os empresários precisam lidar com os efeitos das mudanças que já chegaram ao mercado. Para algumas companhias, isso significa reduzir a produção destinada aos Estados Unidos; para outras, procurar clientes em novos países ou adaptar a estratégia comercial.

O episódio também evidencia a importância da diversificação para as empresas que atuam no comércio exterior. Ter diferentes mercados consumidores pode reduzir a exposição a mudanças repentinas nas políticas comerciais de um determinado país.

No curto prazo, mecanismos de financiamento, seguros e programas de apoio podem contribuir para que empresas atravessem o período de maior dificuldade. No longo prazo, entretanto, a ampliação da presença brasileira em diferentes mercados internacionais poderá ser uma das estratégias utilizadas pelas companhias para diminuir sua dependência dos Estados Unidos.

O cenário ainda pode sofrer novas mudanças conforme avancem as negociações entre os governos brasileiro e americano. Até que haja uma definição, empresas exportadoras terão de administrar a queda nas vendas, avaliar novos destinos para seus produtos e buscar alternativas para preservar negócios, empregos e investimentos.

Para o setor empresarial brasileiro, o momento exige adaptação diante de um cenário internacional marcado por mudanças nas regras comerciais. A capacidade de encontrar novos mercados e estabelecer novas relações comerciais poderá ser decisiva para as empresas que atualmente enfrentam dificuldades para manter suas vendas aos Estados Unidos.

Ana Carolina