Uma tragédia abalou o sul da China neste domingo (4), quando uma forte tempestade atingiu a província de Guizhou, provocando o naufrágio de pelo menos quatro barcos turísticos que navegavam pelo rio Wu. Segundo autoridades locais e agências de notícias internacionais, ao menos 10 pessoas morreram e cerca de 70 ficaram feridas, algumas com gravidade. O acidente ocorreu por volta das 16h (horário local), durante um feriado prolongado, o que contribuía para o elevado número de turistas na região.
As embarcações envolvidas faziam parte de um passeio turístico organizado para o feriado do Dia do Trabalho, uma das datas mais celebradas na China, quando milhões de cidadãos aproveitam o recesso para viajar. Estima-se que cerca de 84 pessoas estavam a bordo das quatro embarcações no momento em que ventos de grande intensidade e uma forte chuva de granizo atingiram a área de forma repentina.
De acordo com a mídia estatal chinesa, as condições climáticas mudaram rapidamente, pegando turistas e operadores de surpresa. Imagens compartilhadas por redes sociais e pela imprensa local mostram o momento em que as embarcações viram e são engolidas pela correnteza, enquanto passageiros tentam se agarrar a coletes salva-vidas e partes da estrutura dos barcos.
As operações de resgate foram dificultadas pela visibilidade reduzida causada pela neblina e pela força da correnteza. As autoridades mobilizaram equipes de mergulhadores, drones e barcos de apoio para tentar localizar vítimas e salvar sobreviventes. Segundo o jornal estatal China Daily, entre os mortos estavam crianças e idosos, cujos corpos foram retirados do rio nas primeiras horas da noite.
Setenta passageiros foram encaminhados a hospitais da região com ferimentos diversos. Apesar da gravidade do acidente, quatro pessoas saíram ilesas. Um sobrevivente, entrevistado pela agência Xinhua, relatou o desespero: “A água ficou turva de repente, os ventos aumentaram e antes que percebêssemos o barco já estava virando. Foi um caos.”
A gravidade do acidente mobilizou diretamente a liderança do Partido Comunista Chinês. O presidente Xi Jinping determinou que as autoridades locais façam “todos os esforços possíveis” para encontrar os desaparecidos e garantam o apoio às famílias das vítimas. Ele também pediu uma investigação rigorosa sobre as causas do acidente, enfatizando a importância da segurança no setor turístico, especialmente em datas com grande fluxo de visitantes.
Zhang Guoqing, vice-primeiro-ministro da China, foi enviado imediatamente à região de Guizhou para coordenar os trabalhos de resgate e prestar solidariedade às famílias das vítimas. Em comunicado oficial, o governo declarou que as embarcações estavam operando dentro da capacidade permitida, o que reforça a tese de que o desastre foi provocado principalmente pelas condições climáticas extremas, e não por falha operacional.
Alerta meteorológico não teria sido suficiente
Especialistas apontam que o sistema de alerta meteorológico pode não ter funcionado com a rapidez necessária para impedir que os barcos saíssem ou permanecessem em operação. De acordo com o Centro Meteorológico Nacional da China, havia alertas sobre ventos fortes e possibilidade de tempestades localizadas para a região de Guizhou no fim de semana, mas os operadores turísticos afirmam que a intensidade da tempestade foi “inesperada”.
“Eventos climáticos extremos estão se tornando mais frequentes e intensos. Isso exige atualização nos protocolos de emergência, especialmente em áreas de turismo fluvial”, declarou o meteorologista chinês Liu Jian, à rede CCTV. Ele defendeu investimentos em sensores climáticos de resposta rápida e canais de comunicação direta com operadores turísticos locais.
O episódio reacendeu o debate sobre as condições de segurança em atividades turísticas realizadas em rios e lagos na China. Embora o país tenha regulamentações que limitam a quantidade de passageiros e exijam equipamentos de segurança como coletes salva-vidas, críticos apontam que nem sempre essas normas são rigorosamente aplicadas.
Em 2015, um acidente semelhante no rio Yangtze matou 442 pessoas, a maioria idosos, após uma embarcação ser atingida por uma tempestade repentina. O caso resultou em mudanças pontuais na legislação, mas especialistas afirmam que ainda há falhas na prevenção e fiscalização.
“Há uma tendência de subestimar o risco climático durante períodos de grande fluxo turístico. Muitas vezes, a pressão econômica para manter os passeios ativos sobrepõe-se à segurança”, afirmou Chen Wei, pesquisador em segurança marítima da Universidade de Pequim.
A tragédia causou comoção nas redes sociais chinesas, especialmente no Weibo — plataforma similar ao Twitter —, onde milhares de usuários prestaram homenagens às vítimas e criticaram o que consideram uma “falha sistêmica” de prevenção. A hashtag “#NaufrágioEmGuizhou” ficou entre as mais comentadas do dia, com mensagens de solidariedade e cobrança por melhorias na segurança do turismo fluvial.
O governo municipal de Zunyi, cidade mais próxima ao local do acidente, decretou luto oficial de três dias. Escolas, repartições públicas e empresas da região devem manter as bandeiras a meio mastro em respeito às vítimas.





