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Vorcaro nega fraude no BRB e culpa investigações pela crise

Vorcaro nega fraude no BRB e culpa investigações pela crise

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro voltou a negar qualquer participação em irregularidades nas operações financeiras envolvendo o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB). Em depoimento prestado à Polícia Federal (PF), ele afirmou que não houve fraude na negociação de carteiras de crédito entre as instituições e atribuiu a crise enfrentada pelo banco público à repercussão das investigações, à liquidação do Master e à perda de confiança provocada pelo caso.

Segundo Vorcaro, a situação financeira e institucional do BRB foi diretamente afetada depois que o Banco Master teve suas atividades liquidadas e ele próprio foi preso. Durante o depoimento, o ex-banqueiro afirmou que, após esses acontecimentos, aproximadamente R$ 9 bilhões foram retirados do BRB por clientes e investidores.

Na avaliação de Vorcaro, a crise não teria sido provocada por suas decisões ou por supostas irregularidades nas operações, mas pelo impacto da liquidação do Banco Master e pelo desgaste provocado pelas investigações. Ele argumentou que instituições financeiras dependem diretamente da credibilidade perante o mercado e seus clientes e que a repercussão do caso teria abalado a confiança no Banco de Brasília.

Durante o interrogatório, Vorcaro também negou que o Banco Master tenha comercializado créditos inexistentes para o BRB. Questionado sobre os laudos e documentos que apontariam possíveis irregularidades nas operações, ele sustentou que não houve prejuízo financeiro para o banco público nem para os clientes das instituições envolvidas.

O ex-controlador do Master reconheceu que foram identificados problemas relacionados a carteiras de crédito vinculadas à empresa Tirreno. Entretanto, afirmou que, assim que tomou conhecimento das inconsistências, providenciou a substituição dos ativos envolvidos na negociação.

De acordo com sua versão, foram utilizados recursos e ativos pertencentes tanto ao Banco Master quanto ao seu patrimônio pessoal para realizar a substituição. Vorcaro declarou que a medida teria sido adotada de boa-fé e que, atualmente, o BRB possuiria ativos em valor superior ao montante originalmente pago.

Ele também afirmou que as operações relacionadas às carteiras da Tirreno foram encerradas em maio, meses antes de o caso ganhar repercussão pública, em novembro de 2025.

Outro ponto importante do depoimento foi a contestação apresentada pelo ex-banqueiro sobre a interpretação dos fatos pela Polícia Federal.

Vorcaro afirmou que as investigações teriam partido de uma compreensão equivocada de informações relacionadas às operações financeiras e declarou acreditar que foi construída uma narrativa de fraude bilionária para justificar as medidas judiciais adotadas contra ele.

Em sua manifestação, classificou as acusações como uma versão distorcida dos acontecimentos e afirmou que está sendo perseguido. Também declarou considerar injusta sua prisão e pediu que o procedimento investigativo seja arquivado.

Como argumento para sustentar sua versão, o ex-banqueiro defendeu a realização de uma perícia independente, inclusive com a participação de uma empresa especializada de fora do Brasil, para avaliar os ativos negociados entre as instituições.

Na avaliação de Vorcaro, uma análise técnica dos documentos e das operações permitiria esclarecer se houve efetivamente prejuízo financeiro e se as transações apresentaram alguma irregularidade.

Ele também afirmou que acredita na Justiça e disse estar disposto a assumir eventuais responsabilidades, desde que os fatos sejam examinados de maneira completa e imparcial.

Apesar das negativas apresentadas por Vorcaro, a investigação da Polícia Federal aponta um cenário diferente.

Segundo o relatório policial, o BRB teria adquirido aproximadamente R$ 17,5 bilhões em ativos e carteiras de crédito do Banco Master entre julho de 2024 e outubro de 2025. Desse total, pelo menos R$ 12,2 bilhões corresponderiam a créditos cuja existência não teria sido comprovada pelos investigadores.

A suspeita é de que operações envolvendo carteiras de crédito fictícias tenham sido utilizadas para movimentar recursos e garantir liquidez ao Banco Master, que enfrentava dificuldades financeiras.

A Polícia Federal também aponta que as transações faziam parte de uma estrutura mais ampla, envolvendo compra, recompra e substituição de carteiras de crédito, além de operações relacionadas ao aumento de capital do BRB e à tentativa de aquisição do Banco Master pela instituição pública.

No dia 28 de outubro, a PF indiciou Daniel Vorcaro, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e outras 13 pessoas investigadas no caso.

Vorcaro foi indiciado por suspeitas de gestão fraudulenta, indução a erro, falsidade em informações ou documentos, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Já Paulo Henrique Costa foi indiciado por suspeitas de gestão fraudulenta e organização criminosa.

De acordo com os investigadores, o ex-banqueiro teria desempenhado papel central na estrutura investigada, participando diretamente das decisões relacionadas às operações financeiras.

O relatório foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF), e a Polícia Federal solicitou mais 60 dias para dar continuidade às investigações, concluir perícias e realizar diligências complementares.

O depoimento de Vorcaro também abordou a relação com Paulo Henrique Costa, que comandava o Banco de Brasília durante parte das negociações com o Master.

Um dos assuntos mencionados foi a questão de imóveis avaliados em aproximadamente R$ 146 milhões, que teriam sido relacionados à negociação entre as instituições.

Vorcaro afirmou que os imóveis não seriam presentes ao então presidente do BRB. Segundo sua versão, as propriedades seriam disponibilizadas para moradia caso a operação de integração entre os bancos fosse concluída e Paulo Henrique Costa assumisse uma função de gestão na instituição resultante da negociação.

Ele explicou que os imóveis seriam cedidos em regime de comodato, sem transferência imediata de propriedade, e que uma eventual aquisição futura poderia ocorrer dentro de um programa de benefícios destinado aos gestores.

Em seu próprio depoimento, Paulo Henrique Costa afirmou que o BRB não tinha conhecimento de que poderia estar ocorrendo fraude nas operações realizadas com o Banco Master.

O caso envolvendo o Banco Master e o BRB permanece entre os principais assuntos acompanhados pelas autoridades responsáveis pela fiscalização e investigação do sistema financeiro nacional.

De um lado, Daniel Vorcaro sustenta que as operações foram legítimas, que os ativos foram substituídos e que não houve prejuízo para o banco público. De outro, a Polícia Federal afirma ter identificado indícios de operações fraudulentas envolvendo bilhões de reais e aponta a participação de diferentes pessoas na estrutura investigada.

A divergência entre as versões torna a análise dos documentos, dos registros financeiros e das perícias um elemento fundamental para o esclarecimento dos fatos.

Com o indiciamento dos investigados e a continuidade das diligências, a expectativa é de que novas informações sejam incorporadas ao processo, permitindo aprofundar a apuração sobre a origem das operações, a existência dos créditos negociados e os possíveis impactos financeiros para o Banco de Brasília.

O desfecho do caso dependerá da análise das provas reunidas, das manifestações das defesas e das decisões das autoridades competentes. Até que haja uma conclusão judicial, as acusações devem ser tratadas como suspeitas sob investigação, respeitando-se o direito de defesa e a presunção de inocência dos envolvidos.

O episódio também reforça a importância da transparência, da fiscalização e da responsabilidade na administração de instituições financeiras, especialmente quando operações de grande dimensão envolvem recursos e a confiança da população.

Ana Carolina