Carregando cotação do dólar...

84 milhões estão inadimplentes no Brasil

84 milhões estão inadimplentes no Brasil

A facilidade de acesso ao crédito, combinada com juros elevados e dificuldades para equilibrar o orçamento, ajudou a levar a inadimplência a um dos níveis mais preocupantes dos últimos anos no Brasil. Dados citados pelo UOL, com base no Mapa da Inadimplência da Serasa, apontam que 83,9 milhões de brasileiros tinham dívidas atrasadas há mais de 90 dias em agosto, o equivalente a cerca de 51% da população adulta.

O cenário revela um problema que vai além de casos individuais. Nos últimos anos, o crédito se tornou cada vez mais acessível para diferentes faixas da população, impulsionado pela digitalização dos bancos, pelo crescimento das fintechs e pela ampliação da bancarização. Ao mesmo tempo, a elevação dos juros tornou mais caro manter dívidas, especialmente quando o consumidor recorre ao crédito rotativo do cartão ou a empréstimos para quitar outras contas.

O cartão de crédito aparece como o principal responsável pelas dívidas em atraso. Segundo os dados apresentados na reportagem, 27,2% das dívidas abertas estão relacionadas ao cartão. Na sequência aparecem contas básicas, como água, luz e gás, com 21,1%; dívidas com financeiras, com 19,9%; e serviços, que representam 11,6%.

Um dos fatores que ajudam a explicar o crescimento das dívidas é a expansão expressiva do crédito para pessoas físicas. Dados do Banco Central citados pelo UOL mostram que o volume de crédito concedido a pessoas físicas passou de R$ 213,7 bilhões, em valores atualizados pela inflação, em março de 2011, para R$ 406,4 bilhões em julho de 2026. O crescimento foi de aproximadamente 90%.

O avanço também aparece nos números da Serasa. Entre 2016 e 2026, a quantidade de brasileiros inadimplentes aumentou 38,1%, enquanto o volume total das dívidas cresceu 54,9%.

A expansão do crédito trouxe benefícios ao permitir que mais pessoas tivessem acesso a produtos e serviços financeiros. Entretanto, especialistas ouvidos pelo UOL destacam que a facilidade de contratação também pode aumentar o risco de comprometimento excessivo da renda, principalmente quando o consumidor não consegue dimensionar o custo final de empréstimos e financiamentos.

Durante a pandemia, esse processo ganhou força. Com a queda ou instabilidade da renda de muitas famílias, o crédito passou a ser utilizado por parte dos consumidores para manter despesas básicas e cobrir períodos de dificuldade financeira. Em alguns casos, uma dívida passou a ser usada para pagar outra, criando um ciclo difícil de interromper.

A situação pode se tornar ainda mais complicada quando entram em cena os juros compostos. Uma pessoa que não consegue pagar integralmente a fatura do cartão, por exemplo, pode recorrer ao crédito rotativo ou a um empréstimo para quitar o débito. Se essa operação se repetir sucessivamente, os encargos podem fazer a dívida crescer rapidamente.

A reportagem apresenta o caso de uma consumidora que chegou a acumular 44 cartões de crédito e limites que, somados, alcançavam valores muito elevados. Segundo o relato apresentado ao UOL, a estratégia de utilizar um cartão para cobrir outro e recorrer a empréstimos para pagar parcelas acabou transformando as dívidas em um montante de aproximadamente R$ 1,4 milhão.

Outro caso apresentado é o de um livreiro de São Paulo que acumulou uma dívida de aproximadamente R$ 7 mil no cartão. Com renda variável e a perda do emprego da esposa, ele passou a recorrer a empréstimos para conseguir pagar as contas. O consumidor interrompeu o ciclo antes de contratar uma nova operação de crédito e passou a buscar uma alternativa de renegociação.

O problema, porém, não está restrito a pessoas que perderam o emprego. O UOL destaca que o Brasil vive atualmente um cenário de desemprego baixo e crescimento real da massa salarial, mas, mesmo assim, o comprometimento da renda das famílias com dívidas continua elevado.

Uma das explicações apresentadas por especialistas é que parte do dinheiro recebido pelos trabalhadores acaba sendo direcionada para o pagamento de dívidas antigas, juros e parcelas. Dessa maneira, mesmo quando a renda aumenta, o consumidor pode não perceber uma melhora proporcional na sua capacidade de consumo.

Outro aspecto importante é o crescimento do crédito consignado e de outras modalidades que possuem algum tipo de garantia. Segundo especialista ouvida pela reportagem, cerca de 70% da carteira de crédito das pessoas físicas está concentrada em operações com garantia. Embora essas modalidades possam apresentar juros menores, elas também comprometem uma parcela da renda durante períodos prolongados.

Quando grande parte do salário já está comprometida com prestações, o consumidor pode acabar recorrendo novamente ao cartão, ao cheque especial ou a outras linhas de crédito para pagar despesas do dia a dia. Dessa forma, uma dívida inicialmente administrável pode se transformar em um problema financeiro maior.

A expansão das fintechs também mudou o mercado de crédito brasileiro. A partir de 2018, essas empresas passaram a ter autorização para conceder crédito diretamente à população. Segundo dados citados pelo UOL, o volume de crédito movimentado pelas fintechs aumentou de R$ 161 milhões em 2016 para R$ 53,8 bilhões em 2025.

Ao mesmo tempo, houve uma ampliação da bancarização da população. O pagamento de benefícios sociais por meio de cartões e contas digitais contribuiu para aproximar milhões de brasileiros do sistema financeiro formal. Esse movimento facilitou pagamentos e transferências, mas também ocorreu em paralelo ao aumento da oferta de crédito para consumidores de diferentes níveis de renda.

Especialistas ressaltam que o acesso ao sistema financeiro pode trazer ganhos importantes, mas precisa ser acompanhado de informação sobre os custos envolvidos nas operações. O consumidor que contrata crédito precisa considerar não apenas o valor da parcela, mas também o custo total da dívida e o impacto daquele compromisso sobre o orçamento mensal.

A diferença entre as faixas de renda também aparece no comportamento diante do cartão de crédito. Segundo dados apresentados na reportagem, entre consumidores de maior renda, 82% dos gastos no cartão são pagos integralmente no vencimento da fatura. Entre famílias de baixa renda, esse percentual cai para 64%, indicando maior utilização de modalidades como o crédito rotativo e o cheque especial.

Diante do tamanho do problema, a renegociação das dívidas ganhou espaço. O governo anunciou neste ano o Desenrola 2.0, programa voltado à repactuação de débitos. Conforme os dados citados pelo UOL, a iniciativa renegociou R$ 68 bilhões em dívidas de famílias e empresas.

Apesar dos programas de renegociação, especialistas consultados pelo UOL avaliam que a solução não depende apenas de limpar os nomes dos consumidores. Para eles, é necessário enfrentar também as causas que levam as famílias a acumular novas dívidas, incluindo o custo do crédito e a necessidade de melhorar a educação financeira.

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban), por sua vez, afirmou ao UOL que os bancos adotam políticas próprias para avaliar financiamentos e possuem medidas voltadas à prevenção do superendividamento e da inadimplência. A entidade também citou iniciativas de autorregulação, educação financeira e mutirões para renegociação de dívidas.

O quadro mostra que o endividamento das famílias brasileiras é resultado de uma combinação de fatores. A maior disponibilidade de crédito permitiu ampliar o consumo e incluir mais pessoas no sistema financeiro, mas juros elevados, renda comprometida e dificuldades de planejamento podem transformar o crédito em um problema quando utilizado sem capacidade de pagamento.

Com quase 84 milhões de pessoas inadimplentes, o cenário representa um desafio para consumidores, instituições financeiras e para a economia como um todo. Enquanto as famílias precisam buscar alternativas para reorganizar seus orçamentos, bancos e autoridades enfrentam o desafio de ampliar o acesso ao crédito sem estimular níveis de endividamento que comprometam a renda por longos períodos.

A situação também chama atenção para a importância da renegociação e do planejamento financeiro. Para quem já possui dívidas, conhecer o valor total dos débitos, comparar condições de pagamento e evitar a contratação sucessiva de novos empréstimos pode ser fundamental para interromper o ciclo de endividamento.

Os números apresentados pelo UOL mostram, portanto, que a inadimplência no Brasil não é apenas consequência de decisões individuais. O problema está relacionado também às transformações ocorridas no mercado de crédito, às condições econômicas e ao aumento da participação da população no sistema financeiro.

O desafio agora é fazer com que a expansão do crédito seja acompanhada por condições que permitam aos consumidores utilizar essas ferramentas de maneira sustentável, evitando que o acesso ao dinheiro no curto prazo resulte em uma dívida difícil de administrar no futuro.

Ana Carolina