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Lula revê estratégia para o 2º turno

Lula revê estratégia para o 2º turno

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciou uma revisão da estratégia eleitoral para o segundo turno da eleição presidencial de 2026 depois de terminar a primeira etapa da disputa atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL). Diante de uma diferença de pouco mais de 2,2 milhões de votos, a campanha petista passou a discutir mudanças na comunicação, na organização interna e na forma de buscar votos nas próximas semanas.

A nova fase da disputa começou com uma reunião realizada em Brasília, na segunda-feira (5), que reuniu integrantes da campanha, lideranças de partidos aliados, governadores, candidatos que participaram das eleições estaduais e nomes que disputaram vagas no Senado. O encontro teve como objetivo avaliar o resultado do primeiro turno e definir caminhos para a reta final da eleição, cujo segundo turno está marcado para 25 de outubro.

No primeiro turno, Flávio Bolsonaro terminou na primeira colocação, com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%. Em números absolutos, o candidato do PL recebeu cerca de 56,1 milhões de votos, contra aproximadamente 53,8 milhões do petista. A diferença, de 2.224.965 votos, levou as duas candidaturas para uma nova disputa, agora em confronto direto.

O resultado provocou uma reavaliação dentro da campanha de Lula, que esperava chegar ao segundo turno em uma posição mais confortável. A estratégia definida para as próximas semanas deverá priorizar a recuperação de votos em regiões consideradas fundamentais para o desempenho petista e a conquista de eleitores que não participaram da primeira votação.

Uma das principais preocupações está relacionada ao desempenho de Lula no Nordeste. Embora o presidente tenha vencido em todos os estados da região, sua votação proporcional foi menor do que a registrada na eleição presidencial de 2022. Para os aliados, recuperar parte desses votos pode ser fundamental para diminuir a vantagem obtida por Flávio no primeiro turno.

Os números mostram uma queda significativa em estados tradicionalmente favoráveis ao PT. No Maranhão, por exemplo, a votação de Lula caiu de 68,84% em 2022 para 63,91% em 2026. Na Bahia, o percentual passou de 69,73% para 66,04%. A campanha pretende, portanto, intensificar a presença política e a mobilização nesses locais.

Governadores aliados que conseguiram se reeleger no primeiro turno também deverão desempenhar papel importante na nova etapa da campanha. Segundo informações divulgadas pelo Metrópoles, os governadores apoiados por Lula que garantiram a vitória antecipadamente se comprometeram a ajudar na mobilização em favor do presidente até a votação de 25 de outubro.

Outro ponto que entrou no radar da campanha é a abstenção. Cerca de 33,4 milhões de eleitores não compareceram às urnas no primeiro turno, o equivalente a aproximadamente 21% do eleitorado. Esse número chamou a atenção dos aliados de Lula porque representa uma quantidade muito superior à diferença de votos entre os dois candidatos que avançaram para o segundo turno.

Além dos eleitores que não foram votar, aproximadamente 6 milhões de pessoas optaram pelo voto branco ou nulo. Com isso, a campanha petista avalia que existe um contingente expressivo de eleitores que poderá ser alvo das ações de mobilização nas próximas semanas.

Lula teria demonstrado preocupação especialmente com a participação dos eleitores mais idosos. A campanha deverá ampliar os esforços para estimular esse grupo a comparecer às urnas no segundo turno, além de tentar convencer eleitores que escolheram outras candidaturas no primeiro turno.

A estratégia de comunicação também deverá passar por mudanças. Entre as possibilidades avaliadas está a contratação do publicitário João Santana para reforçar a equipe responsável pelo marketing da campanha. O profissional já esteve à frente de campanhas vitoriosas de Lula e de Dilma Rousseff em eleições anteriores.

Atualmente, a comunicação de campanha é comandada pelo publicitário Raul Rabelo, que trabalha em parceria com a estrutura ligada ao ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Sidônio Palmeira. Dentro do PT, há grupos que defendem a substituição de Rabelo por João Santana, enquanto outros preferem manter a estrutura atual e apenas acrescentar novos profissionais.

João Santana participou de campanhas presidenciais anteriores que levaram Lula e Dilma à vitória. Em 2026, porém, trabalhou em campanhas estaduais de Ciro Gomes, no Ceará, e ACM Neto, na Bahia. Os dois candidatos não conseguiram vencer suas respectivas disputas.

Outra possibilidade em discussão envolve mudanças na Secretaria de Comunicação Social do governo. Alguns aliados defendem a entrada de novos nomes para reforçar a comunicação e aproximar a estrutura governamental das necessidades da campanha. Entre as sugestões mencionadas está a do apresentador José Luiz Datena, que disputou uma vaga para a Câmara dos Deputados por São Paulo, mas não foi eleito.

Apesar das discussões sobre mudanças na equipe, parte dos aliados avalia que a coordenação nacional não precisa necessariamente ser reformulada. Para esse grupo, o mais importante seria reforçar as estruturas estaduais e ampliar o contato direto com os eleitores, levando a campanha para as regiões onde Lula precisa crescer.

A comunicação deverá continuar explorando temas como soberania nacional, minerais estratégicos, terras raras e o debate sobre as apostas esportivas, além de tentar estabelecer uma comparação mais direta entre Lula e Flávio Bolsonaro.

A ideia é apresentar aos eleitores diferenças entre os dois candidatos, incluindo trajetória política, experiências anteriores e propostas para o futuro do país. A avaliação de integrantes da campanha é de que parte do eleitorado ainda não conhece suficientemente Flávio Bolsonaro e que a disputa direta deverá aumentar a exposição do candidato do PL.

Outro ponto importante para Lula será a participação nos debates. Durante o primeiro turno, o presidente não participou dos confrontos televisivos entre os candidatos. A justificativa esteve relacionada à avaliação de que os debates poderiam criar um ambiente de ataques simultâneos de adversários de direita.

No segundo turno, porém, Lula mudou de posição e demonstrou disposição para participar dos debates contra Flávio Bolsonaro. A avaliação da campanha é de que o confronto direto poderá ser utilizado para apresentar diferenças entre os dois candidatos e buscar votos dos eleitores que ainda não definiram sua escolha.

A intenção declarada pelo presidente é participar dos debates previstos até a votação. Entre eles estão os confrontos organizados por emissoras de televisão durante as semanas que antecedem o segundo turno. O debate da TV Globo está previsto para 25 de outubro, dois dias antes da votação.

A campanha também deverá aumentar a produção de conteúdos direcionados especificamente para os estados. Durante a reunião com aliados, o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, sugeriu que Lula amplie a produção de vídeos em formato mais informal, como gravações feitas pelo próprio celular, além de materiais específicos para cada região.

Mesmo diante dessas sugestões, Lula sinalizou que pretende preservar algumas características tradicionais de sua campanha, como a realização de comícios e o contato presencial com eleitores. O presidente é conhecido por priorizar eventos públicos e atividades de rua durante suas campanhas eleitorais.

A reorganização da equipe não ficará restrita à estrutura nacional. Profissionais que participaram de campanhas estaduais bem-sucedidas deverão ser incorporados ao trabalho de Lula no segundo turno. Na Bahia, por exemplo, integrantes da equipe que ajudou na reeleição do governador Jerônimo Rodrigues passaram a reforçar a comunicação do presidente.

Dois editores e uma fotógrafa que trabalharam na campanha baiana já foram incorporados à equipe em Brasília. A estratégia também prevê aproveitar profissionais que atuaram nas campanhas do Piauí e do Ceará, buscando trazer para a estrutura nacional experiências adquiridas nas disputas estaduais.

A movimentação demonstra que o PT pretende utilizar os próximos dias para reorganizar a campanha e ampliar sua capacidade de comunicação e mobilização. Com pouco menos de três semanas até o segundo turno, a equipe terá pouco tempo para modificar a percepção do eleitorado e buscar uma virada.

A disputa também deverá aumentar a importância das alianças políticas. Lula terá de ampliar o diálogo com lideranças que apoiaram outros candidatos no primeiro turno e tentar conquistar parte dos votos que foram destinados às candidaturas que ficaram pelo caminho.

Ao mesmo tempo, a campanha precisará evitar a perda de eleitores que tradicionalmente apoiam o PT, especialmente em regiões onde o desempenho do presidente caiu em comparação com eleições anteriores.

O segundo turno, portanto, será marcado por uma disputa mais concentrada entre Lula e Flávio Bolsonaro. Sem os demais candidatos na corrida presidencial, os dois terão de apresentar propostas, defender seus históricos e convencer eleitores que ainda não decidiram seu voto.

A diferença registrada no primeiro turno torna a disputa especialmente apertada. Embora Flávio tenha terminado à frente, Lula ainda conta com uma base eleitoral expressiva e terá agora a oportunidade de reorganizar sua campanha e buscar votos em segmentos onde seu desempenho ficou abaixo das expectativas.

Com a revisão das estratégias, mudanças na comunicação, reforço das equipes estaduais e maior disposição para participar de debates, o PT entra em uma nova fase da eleição. A campanha terá como principais desafios ampliar a votação no Nordeste, reduzir a abstenção, conquistar eleitores de outras candidaturas e apresentar uma estratégia capaz de enfrentar o crescimento de Flávio Bolsonaro.

Até 25 de outubro, os dois candidatos deverão intensificar agendas, reuniões políticas, eventos públicos e ações de comunicação. O resultado do primeiro turno mostrou uma disputa mais equilibrada do que o esperado por parte da campanha petista, fazendo com que Lula e seus aliados adotassem uma postura de maior mobilização para a etapa decisiva da eleição.

Ana Carolina