Uma carta assinada por mais de 380 empresários colocou a política econômica, o equilíbrio das contas públicas e as reformas institucionais no centro das discussões eleitorais. O documento, elaborado pelo grupo Parlatório, reúne propostas direcionadas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que disputam o segundo turno das eleições presidenciais de 2026.
Os signatários defendem a adoção de medidas econômicas capazes de reduzir a taxa básica de juros, a Selic, para 7,5% ao ano já em 2027. A iniciativa também estabelece como prioridades a diminuição da dívida pública, o controle do déficit fiscal e a criação de condições para um crescimento econômico sustentável.
De acordo com a reportagem do Correio Braziliense, o grupo reúne empresários que, somados, representam cerca de 40% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. A carta apresenta uma série de compromissos que, na avaliação dos participantes, deveriam ser assumidos pelos candidatos para orientar as decisões do próximo governo.
A proposta vai além da economia. O documento também aborda mudanças no funcionamento do Estado, reformas no Judiciário, alterações nas regras políticas e medidas relacionadas à saúde, à defesa nacional e à política externa.
Entre as principais metas econômicas está a obtenção de superávit primário de pelo menos 1% do PIB em 2027. Esse resultado ocorre quando as receitas do governo superam as despesas, desconsiderando os juros da dívida pública. O grupo também defende que o déficit nominal fique abaixo de 7% do PIB, além de uma meta de inflação de 3% ao ano e crescimento econômico na mesma proporção.
Na avaliação dos empresários, a combinação dessas medidas seria importante para recuperar a confiança dos agentes econômicos, contribuir para a estabilização das contas públicas e abrir espaço para uma redução mais rápida dos juros.
A taxa Selic exerce influência sobre diversas operações financeiras, incluindo empréstimos, financiamentos, aplicações e decisões de investimento. Quando os juros permanecem elevados, o custo do crédito tende a aumentar, o que pode dificultar o consumo das famílias e a expansão das empresas. Por outro lado, a redução da taxa depende das condições econômicas e da avaliação do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável pelas decisões sobre a política monetária.
Por esse motivo, os empresários defendem que o próximo governo trate a agenda macroeconômica como prioridade. A carta propõe a aprovação de medidas fiscais e estruturais que favoreçam uma redução gradual e consistente dos juros, respeitando a avaliação técnica do Banco Central.
A meta de levar a Selic a 7,5% já em 2027 representa uma ambição do grupo empresarial, e não uma decisão já tomada pelo Banco Central. Para que esse cenário se concretize, será necessário considerar fatores como a trajetória da inflação, as expectativas do mercado, a situação fiscal e o comportamento da atividade econômica.
O documento foi coordenado pelo Parlatório, grupo liderado pelo economista e executivo Roberto Giannetti da Fonseca. As propostas também contaram com a colaboração de personalidades com experiência em diferentes áreas da administração pública e do setor privado, entre elas o embaixador Rubens Barbosa, o general Otávio Rego Barros, o presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Isaac Sidney, e o ex-presidente da Petrobras Jean Paul Prates.
Além do ajuste fiscal, a carta dedica atenção especial à organização das instituições brasileiras. Os empresários defendem o respeito à Constituição Federal, ao Estado Democrático de Direito, à independência entre os Poderes e ao resultado das urnas. O grupo considera que a estabilidade institucional é um elemento importante para a segurança jurídica e para a previsibilidade necessária aos investimentos.
Uma das propostas mais expressivas é a realização de uma reforma do Judiciário já em janeiro de 2027. Entre os pontos citados está a criação de regras para a indicação de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A iniciativa busca incluir o funcionamento das instituições e os critérios de composição das cortes no conjunto de compromissos que os candidatos deveriam assumir.
Na área política, os signatários defendem o fim da possibilidade de reeleição para cargos do Poder Executivo. A proposta alcançaria as regras aplicáveis aos ocupantes de cargos executivos, alterando o modelo eleitoral atualmente vigente. O grupo também sugere reduzir ou até extinguir o Fundo Especial de Financiamento de Campanha, conhecido como Fundo Eleitoral, utilizado para financiar campanhas políticas.
Outro ponto envolve as emendas parlamentares. Os empresários propõem limitar esses recursos a 5% da verba discricionária, parcela do orçamento sobre a qual o governo possui maior margem de decisão. A discussão está relacionada à distribuição dos recursos públicos, à execução orçamentária e ao equilíbrio entre as prioridades definidas pelo Executivo e as demandas apresentadas pelos parlamentares.
Na administração pública, a carta recomenda diminuir o número de ministérios e revisar as carreiras do funcionalismo. A proposta busca reduzir a estrutura governamental e reavaliar a organização dos serviços públicos, embora a implementação de mudanças dessa natureza dependa de decisões políticas, estudos técnicos e respeito às regras legais aplicáveis aos servidores.
O grupo também incluiu temas que ultrapassam a gestão fiscal e administrativa. Na saúde, defende a ampliação da cobertura vacinal, com o objetivo de fortalecer a prevenção de doenças e ampliar a proteção da população.
Na política externa, os empresários apontam a necessidade de solucionar a crise diplomática com os Estados Unidos. A proposta demonstra a preocupação do setor produtivo com as relações internacionais e seus possíveis efeitos sobre o comércio, os investimentos e a atividade econômica brasileira.
A carta também sugere estabelecer uma meta de gastos com Defesa equivalente a 2% do PIB. Além disso, defende a preservação da soberania nacional na exploração de minerais críticos, recursos considerados estratégicos para diferentes cadeias industriais e para o desenvolvimento de tecnologias.
Ao apresentar uma agenda tão ampla, o Parlatório busca vincular o debate eleitoral a compromissos que, segundo seus integrantes, deveriam orientar a atuação presidencial nos próximos anos. O objetivo é fazer com que os candidatos se posicionem não apenas sobre a condução da economia, mas também sobre o funcionamento das instituições e a gestão dos recursos públicos.
Segundo o Correio Braziliense, os representantes do grupo afirmaram já ter se reunido com Lula e Flávio Bolsonaro. A carta também sinaliza que o cumprimento das medidas propostas será acompanhado caso os candidatos assumam os compromissos apresentados.
Esse monitoramento indica que os empresários pretendem manter a pressão sobre o futuro governo depois das eleições. A intenção é acompanhar a transformação das propostas em medidas concretas, embora a implementação dependa de decisões do Executivo, da atuação do Congresso Nacional e, em determinados casos, de mudanças legislativas ou constitucionais.
O debate sobre o ajuste fiscal ganha relevância porque as contas públicas influenciam as expectativas econômicas, o custo de financiamento do governo e as condições de crédito disponíveis para empresas e consumidores. Uma trajetória fiscal considerada sustentável pode contribuir para reduzir incertezas, mas as medidas necessárias para alcançar esse objetivo costumam envolver escolhas complexas sobre despesas, receitas e prioridades orçamentárias.
Da mesma forma, a redução da Selic não depende exclusivamente de uma promessa presidencial. O Banco Central toma suas decisões com base na análise das condições econômicas, especialmente da inflação e das perspectivas para sua evolução. A política fiscal pode influenciar esse cenário, mas a taxa básica continua sujeita à avaliação técnica do Copom.
As propostas apresentadas pelo Parlatório, portanto, colocam em discussão diferentes caminhos para a economia brasileira e para a organização do Estado. Enquanto o grupo defende metas específicas para o resultado fiscal, a inflação e os juros, também propõe mudanças institucionais que exigiriam articulação política e, em alguns casos, alterações nas regras atualmente em vigor.
A expectativa dos empresários é que os candidatos assumam compromissos claros e que as medidas sejam acompanhadas ao longo do próximo mandato. O resultado desse debate dependerá das escolhas do eleitorado, da capacidade de negociação política e das condições econômicas que o próximo governo encontrará.
Com a aproximação do segundo turno, a carta acrescenta pressão do setor empresarial sobre os dois candidatos e amplia a discussão sobre os rumos da economia. A definição das prioridades fiscais, a relação entre governo e Banco Central e a disposição para promover reformas estarão entre os temas relevantes para o próximo ciclo de governo.





