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Dívida e juros altos desafiam o próximo presidente

Dívida e juros altos desafiam o próximo presidente

O próximo presidente da República terá pela frente um cenário econômico complexo, marcado pelo crescimento da dívida pública, juros elevados, desaceleração da atividade econômica e dificuldades para equilibrar as contas do governo. Os desafios exigirão decisões importantes sobre gastos públicos, arrecadação, reformas estruturais e investimentos, em um contexto no qual milhões de famílias e empresas brasileiras também enfrentam dificuldades financeiras.

Uma reportagem publicada pela Forbes Brasil destaca que o quadro fiscal será uma das principais preocupações do governo que assumirá o Palácio do Planalto em janeiro de 2027. Independentemente de quem vencer a disputa presidencial, será necessário apresentar um plano consistente para estabilizar a dívida, recuperar a confiança dos investidores e criar condições para que a economia volte a crescer de forma sustentável.

Os números ajudam a dimensionar o problema. Em agosto de 2026, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), o equivalente a aproximadamente R$ 11,1 trilhões, segundo dados do Banco Central citados pela publicação. Isso significa que o endividamento dos governos federal, estaduais e municipais corresponde a quase 83% de tudo o que o país produz em um ano.

Embora o indicador ainda esteja abaixo do pico registrado durante a pandemia, quando alcançou cerca de 87,7% do PIB em 2020, a trajetória recente preocupa os especialistas. No fim de 2025, a relação entre dívida e PIB estava em 78,6%, avançando para 82,5% em julho deste ano e chegando ao patamar de 82,9% em agosto.

O problema não está apenas no tamanho da dívida, mas também na velocidade com que ela cresce e no custo necessário para financiá-la. Quanto maior o endividamento em relação à capacidade de produção do país, maior pode ser a preocupação dos investidores com a sustentabilidade das contas públicas. Esse cenário tende a elevar os juros exigidos para financiar o governo e reduzir os recursos disponíveis para outras áreas.

A situação se torna ainda mais delicada porque o Brasil mantém uma taxa básica de juros elevada. Quando o governo precisa pagar mais para financiar suas obrigações, uma parcela maior do orçamento acaba destinada ao serviço da dívida, diminuindo o espaço para investimentos em infraestrutura, saúde, educação, segurança e outras políticas públicas.

A economista Zeina Latif, consultada pela Forbes, considera que o ajuste fiscal precisa ocupar posição central na agenda do próximo governo. Na avaliação dela, a falta de clareza sobre a trajetória das contas públicas aumenta a incerteza e pode paralisar decisões de investimento do setor privado. Para que empresas ampliem suas operações, contratem trabalhadores e desenvolvam novos projetos, é importante que exista previsibilidade econômica e institucional.

O desafio, portanto, vai além de reduzir um indicador fiscal. O governo precisará demonstrar que consegue administrar receitas e despesas de forma sustentável, sem comprometer a capacidade de prestar serviços públicos e atender às necessidades da população.

O crescimento econômico também vem perdendo força. Segundo dados citados pela reportagem, o PIB brasileiro avançou 0,5% no segundo trimestre de 2026 em relação aos três meses anteriores, depois de registrar expansão de 1,1% no primeiro trimestre. No acumulado de quatro trimestres, o crescimento ficou em 1,9%.

As projeções para os períodos seguintes indicam uma expansão mais moderada. O Boletim Focus divulgado pelo Banco Central em 19 de outubro reduziu a estimativa de crescimento do PIB para 1,83% em 2026 e 1,32% em 2027. Caso essas previsões se confirmem, a economia continuará crescendo, mas em ritmo relativamente limitado.

Um crescimento mais lento pode dificultar a geração de empregos, a ampliação da renda e o aumento da arrecadação tributária. Quando a atividade econômica perde força, empresas tendem a adiar investimentos, consumidores podem reduzir gastos e o governo encontra menos espaço para elevar suas receitas sem alterar impostos ou regras de arrecadação.

Ao mesmo tempo, os juros altos afetam diretamente as condições de crédito. Empréstimos e financiamentos ficam mais caros, dificultando a compra de imóveis, a aquisição de veículos e a expansão de negócios. Pequenas e médias empresas, que frequentemente dependem de capital de terceiros para financiar suas atividades, podem enfrentar dificuldades ainda maiores.

A situação das famílias também merece atenção. De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 81,7% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida no período mencionado pela Forbes.

No setor empresarial, a publicação destaca que o número de empresas inadimplentes chegou a 9,3 milhões em agosto de 2026, um recorde segundo os dados apresentados na reportagem. O cenário reforça a importância de medidas que ajudem a recuperar a capacidade de investimento e melhorem as condições de financiamento da economia.

Outro indicador preocupante é o volume de juros pagos pelo setor público. Nos 12 meses encerrados em julho, os juros nominais da dívida alcançaram aproximadamente R$ 1,15 trilhão, o equivalente a 8,67% do PIB. No mesmo período, o setor público registrou déficit primário de R$ 89,3 bilhões.

Quando se somam os juros ao resultado primário, o déficit nominal chegou a cerca de R$ 1,24 trilhão, correspondente a 9,34% do PIB. O resultado mostra a dimensão do custo financeiro enfrentado pelo governo e ajuda a explicar por que o controle das despesas aparece entre as principais prioridades apontadas pelos especialistas.

O resultado primário representa a diferença entre as receitas e as despesas públicas antes do pagamento dos juros da dívida. Quando as despesas superam as receitas, há déficit primário. Quando a arrecadação fica acima dos gastos, ocorre superávit primário.

Para estabilizar o endividamento, o país precisará melhorar gradualmente esse resultado, criando condições para que a dívida deixe de crescer de maneira persistente em relação ao tamanho da economia. Isso exige medidas que tenham efeitos concretos e que possam ser mantidas ao longo dos próximos anos.

O economista Felipe Salto, da Warren Investimentos, defende a apresentação rápida de um plano fiscal, mas com implementação distribuída ao longo do mandato. A estratégia permitiria estabelecer metas e dar previsibilidade aos agentes econômicos, sem depender exclusivamente de medidas emergenciais de curto prazo.

Entre as alternativas discutidas estão a revisão de benefícios tributários, o controle do crescimento das despesas obrigatórias e a avaliação de programas públicos. Os benefícios fiscais representam recursos que o governo deixa de arrecadar por meio de isenções, reduções de impostos e outros incentivos concedidos a empresas ou setores específicos.

A revisão desses mecanismos poderia ampliar a arrecadação sem necessariamente elevar as alíquotas gerais de impostos. No entanto, a mudança depende de decisões políticas e legais, além da análise dos efeitos econômicos e sociais de cada incentivo. Alguns benefícios podem ter objetivos relevantes, enquanto outros podem ser questionados por seus resultados ou pela falta de avaliação periódica.

O orçamento federal também apresenta uma limitação estrutural: grande parte das despesas está comprometida com obrigações legais. Segundo especialistas ouvidos pela Forbes, menos de 10% do orçamento corresponde a despesas não obrigatórias, o que reduz a liberdade do Executivo para escolher onde aplicar os recursos.

Entre os gastos que pressionam as contas estão aposentadorias, benefícios sociais, despesas vinculadas ao salário mínimo e pisos constitucionais de saúde e educação. Como parte dessas despesas cresce automaticamente em função das regras existentes, o governo precisa encontrar maneiras de evitar que o avanço dos compromissos obrigatórios consuma uma parcela cada vez maior das receitas.

A discussão sobre o salário mínimo é especialmente importante porque diversos benefícios previdenciários e assistenciais estão vinculados ao seu valor. Reajustes acima da inflação podem melhorar o poder de compra de milhões de brasileiros, mas também elevam determinadas despesas públicas. O desafio será conciliar a proteção da renda da população com a sustentabilidade financeira do sistema.

A Previdência Social também deve permanecer no centro do debate. O envelhecimento da população e a redução da taxa de fecundidade alteram a relação entre contribuintes e beneficiários, pressionando o financiamento do sistema previdenciário. Por esse motivo, especialistas defendem que o próximo governo avalie as regras existentes e os efeitos das mudanças demográficas sobre as contas públicas.

A reforma administrativa é outra medida frequentemente mencionada. A proposta envolve revisar a organização das carreiras do funcionalismo, avaliar distorções remuneratórias e melhorar a eficiência dos serviços públicos. O objetivo seria utilizar os recursos de maneira mais produtiva, preservando a qualidade do atendimento oferecido à população.

Essas mudanças, entretanto, exigem negociação política e análise cuidadosa. Reduzir despesas não significa simplesmente cortar recursos de forma indiscriminada. É necessário identificar gastos ineficientes, preservar serviços essenciais e avaliar os impactos de cada medida sobre trabalhadores, famílias e empresas.

A política econômica do próximo presidente também terá de lidar com a relação entre os gastos públicos e a política monetária. Enquanto despesas governamentais podem estimular o consumo e sustentar a atividade econômica, uma demanda muito forte em relação à capacidade de produção pode dificultar a redução da inflação.

Nesse cenário, o Banco Central mantém os juros elevados para conter as pressões sobre os preços e aproximar a inflação da meta estabelecida. Se a política fiscal contribuir para reduzir as incertezas e moderar a demanda, poderá facilitar o trabalho da autoridade monetária. Caso contrário, a necessidade de manter juros altos por mais tempo pode continuar prejudicando o crédito e os investimentos.

A autonomia do Banco Central e a credibilidade da política monetária são apontadas pelos economistas como elementos importantes para a estabilidade. O próximo governo precisará construir uma relação institucional que permita a coordenação entre as políticas fiscal e monetária, respeitando as atribuições legais da autoridade monetária.

A Forbes também destaca diferenças de abordagem econômica entre os candidatos à Presidência. A proposta associada a Flávio Bolsonaro é caracterizada por uma orientação de austeridade mais intensa, com foco na redução de despesas públicas e na revisão de regras que ampliam automaticamente os gastos. Essa estratégia pretende abrir espaço no orçamento e recuperar a confiança dos investidores, mas pode enfrentar resistência política e social caso implique mudanças em benefícios e programas públicos.

Já a abordagem associada a Luiz Inácio Lula da Silva prevê um ajuste mais gradual, procurando preservar políticas sociais e evitar cortes bruscos que afetem a renda das famílias. Esse caminho busca conciliar o controle das contas públicas com a manutenção de benefícios, embora possa produzir resultados fiscais mais lentos se não vier acompanhado de medidas capazes de conter o crescimento das despesas.

A diferença entre as duas estratégias mostra que o desafio não é apenas identificar quais medidas podem melhorar as contas públicas, mas também construir apoio político para aprová-las. Qualquer plano de ajuste dependerá de negociação com o Congresso Nacional e de escolhas sobre a distribuição dos custos e benefícios das mudanças.

Para os especialistas, não existe uma solução única capaz de resolver todos os problemas da economia brasileira. O reequilíbrio fiscal pode exigir uma combinação de redução de gastos, revisão de incentivos tributários e, dependendo das decisões adotadas, mudanças na arrecadação. O peso de cada medida será uma escolha política, com consequências sobre a atividade econômica e a distribuição de renda.

Além do ajuste das contas públicas, o Brasil precisará avançar em reformas estruturais para aumentar sua capacidade de crescer no longo prazo. Entre as prioridades está a conclusão da regulamentação e da transição da reforma tributária, que prevê a implantação de um modelo de Imposto sobre Valor Agregado composto pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), de âmbito federal, e pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), de estados e municípios.

A implementação desse sistema precisará oferecer segurança jurídica e previsibilidade às empresas. A simplificação da tributação pode reduzir custos administrativos e distorções na produção, mas os resultados dependerão da qualidade das regras, da transição entre os modelos e da capacidade de evitar incertezas para os contribuintes.

Outra frente importante é a abertura comercial. A ampliação de acordos internacionais, a redução da burocracia e a simplificação de procedimentos de importação e exportação podem favorecer a integração das empresas brasileiras aos mercados globais. A concorrência internacional também pode estimular a inovação, a modernização e o aumento da produtividade.

A segurança jurídica é igualmente importante para a atração de investimentos. Empresas precisam ter previsibilidade sobre contratos, regras regulatórias e condições de financiamento antes de comprometer recursos em projetos de longo prazo. Mudanças repentinas nas regras podem elevar os riscos percebidos e fazer com que investimentos sejam adiados ou direcionados a outros países.

Nesse contexto, concessões e parcerias público-privadas podem contribuir para ampliar os investimentos em infraestrutura, incluindo rodovias, ferrovias, portos e saneamento. Quando bem estruturados, esses mecanismos permitem mobilizar recursos privados para projetos que exigem capital elevado, desde que existam contratos transparentes, fiscalização adequada e regras claras de remuneração.

A educação e a produtividade também são fundamentais para o crescimento econômico. O aumento da produção por trabalhador depende de qualificação profissional, inovação, tecnologia, infraestrutura e melhores condições de trabalho. Sem avanços nessas áreas, a economia pode continuar crescendo abaixo de seu potencial, mesmo quando houver períodos de aumento do consumo ou expansão do crédito.

Os especialistas ouvidos pela Forbes apontam que a produtividade brasileira enfrenta dificuldades históricas. A baixa qualidade da formação em áreas como matemática, ciências e leitura, combinada com obstáculos à inovação e à modernização das empresas, limita o avanço da renda e da competitividade.

Investimentos em educação básica, ensino técnico e formação profissional podem ajudar a preparar os trabalhadores para as transformações do mercado. Ao mesmo tempo, políticas que favoreçam a inovação e a adoção de tecnologias podem ampliar a eficiência das empresas e criar oportunidades em setores de maior valor agregado.

O próximo governo também precisará enfrentar desafios que vão além dos indicadores econômicos. Saúde, segurança pública e qualidade dos serviços oferecidos pelo Estado influenciam diretamente o bem-estar da população e o ambiente de negócios. A estabilidade fiscal deve funcionar como um instrumento para tornar as políticas públicas sustentáveis, e não como um objetivo isolado das necessidades sociais.

A tarefa do presidente eleito será, portanto, construir uma estratégia que combine responsabilidade fiscal, crescimento econômico, previsibilidade institucional e proteção social. Um plano consistente precisará apresentar metas realistas, indicar de onde virão os recursos e demonstrar como as medidas serão executadas ao longo do mandato.

A recuperação da confiança poderá favorecer a redução dos juros e a retomada dos investimentos, mas esses resultados não são automáticos. Eles dependerão da credibilidade das decisões, da evolução da inflação, do cenário internacional e da capacidade do governo de aprovar mudanças necessárias.

O Brasil dispõe de recursos econômicos importantes, um mercado consumidor amplo e setores produtivos competitivos. Entretanto, transformar esse potencial em crescimento duradouro exigirá enfrentar problemas estruturais que se acumulam há décadas.

A dívida pública, os juros elevados e a desaceleração econômica formam uma combinação que limita a margem de ação do próximo presidente. A maneira como o novo governo organizará as contas públicas, conduzirá as reformas e estimulará a produtividade será decisiva para determinar se o país conseguirá estabelecer uma trajetória mais estável de crescimento.

O desafio central será equilibrar as contas sem comprometer os serviços essenciais, recuperar a confiança dos investidores e criar condições para que empresas e trabalhadores ampliem sua capacidade produtiva. Mais do que anunciar cortes ou prometer crescimento, o próximo governo precisará demonstrar que possui um plano viável, com medidas concretas e capacidade de execução.

Ana Carolina