Senador Canedo, na Região Metropolitana de Goiânia, voltou a ser alvo de uma operação que investiga um suposto esquema de lavagem de dinheiro relacionado ao setor de combustíveis. A ação ocorreu nesta quinta-feira (24), dentro de uma nova etapa da Operação Carbono Oculto, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, em conjunto com a Receita Federal e outros órgãos.
Na cidade goiana, foi cumprido um mandado de busca e apreensão. A nova ofensiva faz parte da chamada Operação Crédito Oculto, desdobramento das investigações anteriores que apuram a utilização de estruturas empresariais e financeiras para ocultar patrimônio e dissimular a origem de recursos.
De acordo com as autoridades, a investigação busca esclarecer como uma estrutura considerada complexa teria sido utilizada para viabilizar a aquisição de uma grande distribuidora de combustíveis, enquanto ocultava os verdadeiros beneficiários econômicos das operações.
As diligências desta quinta-feira foram realizadas em diferentes estados brasileiros. Além de Goiás, as equipes atuaram em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso, Espírito Santo e Santa Catarina. A ação também contou com a participação de órgãos estaduais de fiscalização e segurança.
Segundo a Receita Federal, foram identificadas novas conexões financeiras envolvendo pessoas e empresas que já apareciam nas investigações da Operação Carbono Oculto. Os investigadores afirmam ter encontrado indícios de estruturas destinadas a dificultar a identificação dos responsáveis pelo controle econômico de determinadas empresas.
A apuração aponta inicialmente para a ocultação dos reais proprietários de uma empresa do setor sucroalcooleiro localizada no interior de São Paulo. Conforme os investigadores, a estrutura societária teria utilizado fundos de investimento e outras empresas para dificultar a identificação dos beneficiários finais.
Posteriormente, essa estrutura teria sido utilizada como parte de uma operação ainda maior relacionada à aquisição de uma distribuidora de combustíveis. A investigação aponta para a utilização de diferentes mecanismos financeiros e societários para afastar os nomes dos verdadeiros controladores dos negócios.
Um dos pontos analisados envolve uma operação estimada em aproximadamente R$ 370 milhões em direitos creditórios ligados à empresa sucroalcooleira. Segundo os investigadores, a aquisição desses créditos teria envolvido a transferência de cotas de um fundo de investimento em direitos creditórios.
A análise realizada pelos órgãos de investigação identificou, segundo a Receita Federal, que uma parcela relevante dos recursos utilizados nessa operação teria origem em fundos de investimento controlados pelo mesmo grupo investigado. Para os investigadores, esse fluxo teria criado uma espécie de circuito financeiro que dificultaria o rastreamento da origem e do destino dos recursos.
Outra operação citada pelas autoridades envolve um aporte de R$ 100 milhões em um fundo de investimento. Na sequência, teria sido utilizado um Certificado de Depósito Bancário Vinculado, conhecido como CDBV, em uma operação financeira que envolveu um banco e empresas apontadas como integrantes da estrutura investigada.
Segundo a apuração, o mecanismo teria permitido a capitalização de empresas utilizadas na operação e, ao mesmo tempo, dificultado a identificação dos beneficiários finais relacionados à aquisição da distribuidora de combustíveis.
Os investigadores também analisam a utilização de fundos imobiliários e empresas patrimoniais. De acordo com a Receita Federal, imóveis que dariam suporte econômico às operações teriam sido transferidos para estruturas empresariais e, posteriormente, para fundos de investimento imobiliário.
A hipótese investigada é que esse mecanismo teria permitido manter o controle econômico dos bens sem que eles aparecessem diretamente no patrimônio pessoal dos envolvidos, criando uma espécie de blindagem patrimonial. Outro dado considerado relevante pelas autoridades é a movimentação financeira de uma empresa utilizada nas operações investigadas. Segundo a Receita Federal, essa empresa movimentou aproximadamente R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025.
Para os investigadores, o volume de recursos, analisado em conjunto com outros elementos encontrados durante as apurações, reforça os indícios de que estruturas financeiras e de investimentos podem ter sido utilizadas para ocultação patrimonial, dissimulação da origem de recursos e lavagem de capitais.
Senador Canedo já havia aparecido em uma etapa anterior da Operação Carbono Oculto. Em agosto de 2025, o município foi alvo de mandados de busca e apreensão em empresas ligadas ao comércio, à produção e à distribuição de combustíveis. Na ocasião, as investigações também estavam concentradas em suspeitas de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal no setor.
A presença novamente de Senador Canedo na operação demonstra que as autoridades continuam aprofundando a análise das conexões empresariais e financeiras identificadas nas etapas anteriores da investigação. A nova fase envolve dezenas de endereços e pessoas físicas e jurídicas. O objetivo das buscas é recolher documentos, equipamentos eletrônicos e outros elementos que possam ajudar os investigadores a compreender a estrutura financeira e societária utilizada pelos grupos investigados.
É importante destacar que as informações divulgadas pelas autoridades fazem parte de uma investigação em andamento. As suspeitas apresentadas pelo Ministério Público e pela Receita Federal ainda precisam ser analisadas pelas instâncias competentes, e os alvos das medidas de busca não são automaticamente considerados culpados.
A Operação Carbono Oculto começou a investigar possíveis mecanismos utilizados para movimentar e ocultar recursos no setor de combustíveis. Ao longo das diferentes fases, os investigadores passaram a analisar também a participação de estruturas financeiras, fundos de investimento, empresas e outros mecanismos utilizados para movimentação patrimonial. Nesta nova etapa, denominada Operação Crédito Oculto, a apuração procura identificar como essas estruturas teriam sido combinadas para permitir a aquisição de uma distribuidora de combustíveis e, simultaneamente, dificultar a identificação dos responsáveis pelo controle econômico dos negócios.
Com o cumprimento dos mandados, os materiais apreendidos deverão passar por análise dos investigadores. As informações encontradas poderão ajudar a esclarecer a origem dos recursos, a relação entre as empresas e pessoas investigadas e o funcionamento das estruturas financeiras apontadas na apuração. O caso continua sob investigação e poderá ter novos desdobramentos conforme os órgãos responsáveis avancem na análise dos documentos e dados recolhidos durante a operação.





