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Itamaraty teria ajudado na mudança de Lulinha para Madri

Itamaraty teria ajudado na mudança de Lulinha para Madri

Mensagens encontradas no celular da lobista Roberta Luchsinger e divulgadas pelo Metrópoles apontam que o então embaixador do Brasil em Madri, Orlando Leite Ribeiro, colocou integrantes da representação diplomática à disposição para auxiliar no processo de instalação de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, e de sua família na capital espanhola.

De acordo com a reportagem, Lulinha vive em Madri desde junho de 2025 e teria planos de permanecer na Espanha por pelo menos dois anos. As mensagens analisadas mostram que Roberta Luchsinger participou da organização da mudança e teria arcado com os custos financeiros da transferência. Ela também avaliava se mudar para a Espanha, mas esse plano não chegou a ser concretizado.

Os registros revelados pela reportagem mostram uma série de contatos entre Luchsinger e Orlando Leite Ribeiro durante o período em que a mudança era organizada. Entre os assuntos tratados estavam escolas para os filhos, bairros para morar, visitas a instituições de ensino e outras questões relacionadas à adaptação em Madri.

Em uma das conversas, o então embaixador ofereceu o auxílio de uma funcionária da embaixada para acompanhar visitas a escolas. A oferta ocorreu durante uma conversa sobre instituições de ensino disponíveis na capital espanhola para os filhos de Lulinha e de Roberta Luchsinger.

Segundo as mensagens divulgadas, o diplomata também forneceu informações sobre diferentes regiões de Madri. Entre os locais mencionados estava La Moraleja, bairro onde Lulinha acabou se estabelecendo. O embaixador descreveu a região como uma área de classe média e alta localizada nos arredores da capital espanhola.

As mensagens também mostram que a aproximação entre Luchsinger, Renata Abreu Moreira, esposa de Lulinha, e o então embaixador se estendeu a questões relacionadas ao ensino superior. Em determinado momento, surgiu a possibilidade de uma visita à Universidade de Salamanca, uma das instituições de ensino mais antigas do mundo.

A partir das conversas, Luchsinger e Renata discutiram a possibilidade de contar com uma pessoa ligada à embaixada durante a visita. O então embaixador teria intermediado uma reunião com o reitor da Universidade de Salamanca, Juan Manuel Corchado Rodríguez.

Outro episódio citado pela reportagem envolve uma suposta disponibilidade de uma van da embaixada para auxiliar Luchsinger na compra de móveis. A conversa ocorreu em junho de 2025 e é apresentada pelo Metrópoles como parte dos registros que indicariam a oferta de estrutura da representação diplomática para auxiliar no processo de instalação.

O Itamaraty, entretanto, contestou especificamente essa interpretação. Em manifestação enviada à reportagem, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que não houve cessão de veículo da embaixada e que a van mencionada na conversa não chegou a ser utilizada.

Em relação às escolas, o Ministério confirmou que houve apoio do setor educacional da Embaixada do Brasil em Madri. Segundo a pasta, Roberta Luchsinger havia solicitado uma lista de instituições de ensino na capital espanhola, e o setor educacional prestou auxílio porque possuía contatos das escolas locais.

O Itamaraty afirmou ainda que o fornecimento de informações e o compartilhamento de contatos locais com cidadãos brasileiros fazem parte das atividades realizadas normalmente pelas representações diplomáticas brasileiras no exterior. Dessa forma, o ministério apresenta o apoio prestado como uma atividade relacionada ao atendimento e à orientação de brasileiros.

As mensagens também registram uma relação próxima entre as pessoas envolvidas. Em março de 2025, por exemplo, Orlando Leite Ribeiro agradeceu a Roberta Luchsinger e Renata Abreu Moreira por uma gravata que havia recebido como presente. Na mensagem, o então embaixador afirmou que estava satisfeito em ajudá-las durante o processo de instalação em Madri e disse que elas poderiam continuar contando com ele.

Os registros divulgados mostram ainda que Luchsinger manteve contato com uma pessoa identificada no telefone como “Tiago Motorista Embaixador”. Segundo a reportagem, o contato utilizava um número espanhol e se comunicava em português. O episódio aparece nos registros relacionados às viagens de Luchsinger para Madri.

Orlando Leite Ribeiro havia sido aprovado pelo Senado para assumir a Embaixada do Brasil na Espanha em 2021. Ele permaneceu no posto até julho de 2025, quando foi transferido para a República Tcheca, na Europa Central. A mudança de posto também aparece nas mensagens de Luchsinger, que lamentou a saída do diplomata e mencionou que ele não estaria mais em Madri para acompanhar as atividades planejadas.

O caso ganhou repercussão porque envolve o uso ou a oferta de recursos e contatos de uma representação diplomática brasileira durante a organização da mudança de um familiar do presidente da República para o exterior. A principal questão levantada pela reportagem é até que ponto a estrutura da embaixada foi colocada à disposição para atender demandas relacionadas à instalação de Lulinha e de pessoas próximas a ele.

O Itamaraty, por sua vez, confirmou que houve participação do setor educacional da embaixada no fornecimento de informações e contatos sobre escolas, mas negou que tenha ocorrido a utilização de veículo oficial para a mudança ou para a compra de móveis. A pasta também enquadrou o fornecimento de contatos e informações como uma atividade que faz parte da rotina das embaixadas brasileiras.

A divulgação das mensagens ocorre em um contexto mais amplo envolvendo investigações sobre Roberta Luchsinger. Segundo a CNN Brasil, o celular da lobista foi apreendido pela Polícia Federal em dezembro de 2025 durante uma operação relacionada a suspeitas de fraudes no INSS. A partir do material encontrado no aparelho, diferentes conversas passaram a ser analisadas e divulgadas.

Ainda segundo a CNN, Luchsinger e Lulinha são citados em três inquéritos relacionados a suspeitas de tráfico de influência no governo federal, instaurados pela Polícia Federal com autorização do Supremo Tribunal Federal. Essas investigações, contudo, não significam, por si só, que tenha havido condenação ou comprovação definitiva de irregularidades.

O episódio envolvendo a Embaixada do Brasil em Madri deverá continuar sendo acompanhado justamente pela diferença entre o que aparece nas mensagens e os esclarecimentos apresentados oficialmente pelo Itamaraty. Enquanto os registros indicam ofertas de auxílio envolvendo funcionários, contatos e até a possibilidade de utilização de uma van, o Ministério das Relações Exteriores reconhece o apoio relacionado às escolas e nega que o veículo oficial tenha sido efetivamente cedido ou utilizado.

A reportagem também mostra que a mudança de Lulinha para Madri ocorreu com participação de pessoas próximas à família na organização da nova rotina na Espanha. A escolha de escolas, bairros e instituições de ensino fez parte desse processo, e o então embaixador brasileiro manteve contato direto com os envolvidos durante os meses que antecederam a transferência.

O caso coloca em discussão os limites entre o atendimento consular e diplomático oferecido normalmente a cidadãos brasileiros no exterior e o auxílio personalizado a pessoas próximas a autoridades políticas. A avaliação sobre eventual irregularidade, entretanto, depende da análise dos fatos, das normas aplicáveis e das circunstâncias específicas em que os serviços foram oferecidos.

Até o momento, a posição oficial do Itamaraty é de que o setor educacional da embaixada prestou apoio por possuir contatos de escolas locais e de que não houve utilização de veículo da representação diplomática no episódio citado pela reportagem.

A divulgação das mensagens, portanto, acrescenta novos elementos à discussão sobre a mudança de Lulinha para a Espanha e sobre o relacionamento mantido entre pessoas próximas a ele e integrantes da representação diplomática brasileira em Madri. O caso deve continuar sendo acompanhado à medida que novas informações sejam divulgadas e eventuais esclarecimentos oficiais sejam apresentados.

Ana Carolina